Na segunda metade da década de 80, a Sega era potência nos fliperamas. Nessa época saíram clássicos como "Outrun", "Space Harrier" e "Fantasy Zone". "After Burner II", game de "simulador" de caças que data de 1987, se notabilizou pela ação supersônica non-stop e o poder de imersão, graças a uma cabine que chacoalhava e inclinava conforme o controle da aeronave.
Agora, quase 20 anos depois, a Sega e a Planet Moon Studios querem reviver as emoções da época, só que no PSP. Trata-se de uma releitura do clássico, mantendo exatamente a mesma mecânica de combate fulminante, apenas acrescentando um pouco mais de complexidade e variedade.
Alerta vermelhoO estilo de "After Burner: Black Falcon" é basicamente o mesmo do clássico de duas décadas atrás, ou seja, um jogo de tiro pseudo-3D de nave. O jogador controla apenas a posição do avião na tela e sua velocidade, mas não o seu rumo, que é previamente definido. Ou seja, é bem "velha-guarda", mas como esse estilo quase não se vê mais, fica parecendo novidade.
O roteiro em forma de quadrinhos deixa claro que o game não se leva a sério. No caso, o jogador é um piloto da "Joint Task Force Scramble Team", que deve retomar as 13 aeronaves experimentais que foram roubadas de uma base por pilotos mercenários. Há três personagens para o jogador escolher, que muda um pouco da história e o teor das missões, mas não as fases em si.
Se a história é meio estereotipada, as aeronaves, no entanto, são todas baseadas em modelos reais. São máquinas como o F-14, F-15 e o F-18, passando pelo bombardeiro invisível B2, o hipersônico SR71 "Blackbird" e o experimental X29. Naturalmente, nem todas estão à disposição do jogador no começo: é preciso subir no ranking - e ter dinheiro - para conseguir acesso à maioria das aeronaves.
Todos os aviões possuem as mesmas armas. A munição da metralhadora é infinita, mas sua eficiência se limita a curtas distâncias. As armas principais são os mísseis anti-aéreos e foguetes contra inimigos terrestres, todos dotados de capacidade de perseguição aos alvos, com quantidades limitadas (mas há inúmeras oportunidades para recarregar os mísseis).
Além de ativar as armas, os botões servem para controlar a velocidade e para o giro em espiral, movimentos usados para se livrar de eventuais inimigos que ficam na cola do jogador. O jato também serve para encurtar o tempo da fase (e ganhar mais pontos por isso) e o giro também é usado para desviar dos ataques adversários (em troca de perder a funcionalidade de disparar as armas auxiliares durante a execução do movimento).
Ases indomáveisDurante as fases, o jogador acumula pontos e dinheiro. O primeiro serve para melhorar a patente; quanto mais graduado, mais aeronaves terá a disposição e mais "upgrades" poderá fazer em cada modelo. E o dinheiro é que possibilita comprar as máquinas e os melhoramentos. Estes se subdividem em itens que aumentam o desempenho das armas (além do "after burner") e aqueles que simplesmente mudam o visual, como novas pinturas e algumas peças adicionais de gosto duvidoso.
Todas as fases têm estrutura similar e geralmente duram cerca de cinco minutos. Basicamente, o jogador tem de derrubar tudo que encontrar pela frente. Oponentes aéreos, quando "tocados" pela retícula central, ficam marcados com uma mira azul, indicando que ao se disparar o míssil, este o perseguirá. Se a mira for substituído por um "X" nessa hora, é só aguardar o abatimento. Os inimigos terrestres funcionam da mesma forma, mas a mira é verde e você precisa disparar o foguete, em vez do míssil.
Existem alguns objetivos a cumprir, mas a esmagadora maioria pode ser cumprida ao seguir a risca a mentalidade de tentar derrubar tudo que aparece na tela. Os objetivos realizados com sucesso garantem pontuação e dinheiro extra. Mas não se trata apenas de destruir. Os grupos abatidos fornecem itens, alguns muito importantes para sua sobrevivência, como a energia extra (pacote vermelho) e munição (cinza). Além deles, o roxo deixa o game momentaneamente mais devagar, enquanto o azul e o verde conferem bônus em pontos e dinheiro, respectivamente.
Missão impossívelDe tempos em tempos aparecem estruturas para destruir, como pontes, bases e até um castelo. Geralmente, basta um disparo de míssil para pô-los ao chão, mas as estruturas são desculpa para mostrar cenas de ação altamente improváveis. Mas, como dito, você não deve levar o jogo a sério, em se tratando de roteiro.
Também há vários subchefes e chefes em certos pontos. Os seus ataques variam, mas a estratégia é quase sempre a mesma: travar a mira, ficar disparando mísseis e girar no espaço da tela a fim de escapar das investidas inimigas. Aliás, a estratégia para todo o jogo não muda muito. É mais uma questão de escolher uma aeronave apropriada e treinar o reflexo. A dificuldade é ligeiramente alta e desafiadora mesmo na modalidade normal.
A campanha tem 24 missões, mas com três ou quatro horas dá para terminar todas. Depois disso, o único interesse é liberar todas as aeronaves e seus respectivos melhoramentos, o que não é exatamente muito divertido, pois todos os aviões têm as mesmas armas.
"Black Falcon" oferece dois modos multiplayer. O cooperativo diverte, pois permite que dois jogadores participem de quaisquer das missões do modo de história. Já o competitivo é extremamente limitado e sem graça. Parece um modo de jogo que foi programado somente para incluir o termo "multiplayer" na embalagem.
Velocidade máximaA velocidade e o dinamismo são as atrações do game. Usando o jato, a tela fica com um efeito de borrão, e os inimigos costumam aparecer uma trás do outro, provocando muita confusão com tantos tiros, fumaça e inimigos. Uma pena que, às vezes, isso também faz que o fluxo de tela fique "engasgado".
O visual é apenas bom. Não é nenhuma obra-prima, mas funciona muito bem para a proposta do jogo. As aeronaves contam com uma modelagem competente, que permite distinguir uma máquina da outra. Os cenários também convencem. O único problema é que muitas vezes eles são montados somente quando a nave chega perto. Isso não é exatamente um problema, exceto quando uma montanha inteira aparece de repente. Aí, já é grosseiro demais.
A trilha musical mistura rock e temas militares, mas a qualidade das composições está há anos-luz do original. Não que sejam ruins, mas são bem menos marcantes. Isso só muda quando se usa trechos das músicas do game de 20 anos atrás, que foi reconhecidamente uma das melhores trilhas sonoras em jogos.
Falcão negro em perigo"After Burner: Black Falcon" manteve a fórmula de adrenalina do game original. Não é a mesma coisa que a cabine interativa de antes, mas o sistema simples produz um título com diversão honesta, e soa quase como novidade, pois não há muitos nesse estilo. Porém, o outro lado da moeda é que não prende a atenção por muito tempo, e o restante do conteúdo não consegue aumentar muito sua sobrevida. Assim, o tíquete para esse vôo acaba tendo um preço muito salgado.
CONSIDERAÇÕES