A história de Joana d'Arc, heroína nacional francesa e santa da Igreja Católica, já foi contada em verso e prosa. Mas, por incrível que pareça, nos videogames, sua bravura não havia chamado tanto a atenção das produtoras, ou, no mínimo, os projetos não vieram a se concretizar. Não é o caso da companhia Level-5, especializada em RPG, que pegou o mito da personagem e a inseriu num contexto de fantasia, como se a guerra entre Inglaterra e França não fosse muito diferente daquela retratada em "O Senhor dos Anéis".
Esqueça fidelidade histórica. No universo de "Jeanne d'Arc", a religião dá lugar aos elementos fantásticos. Em vez de escutar uma voz divina, Jeanne, a protagonista, ouve o clamor de um bracelete mítico, que fora usada para selar um perverso demônio, que agora retorna incorporado ao dono da coroa inglesa. A partir desse encontro, começa a jornada da simples camponesa para salvar a França. Felizmente, ela não está sozinha nessa jornada: acompanham-na uma série personagens cativantes, nem sempre humanos.
Pelos poderes do bracelete"Jeanne d'Arc" é um game de estratégia por turnos, um estilo que ficou famoso com "Final Fantasy Tactics", por exemplo. A mecânica lembra a de um jogo de xadrez, em que as partes mexem suas peças alternadamente, com a diferença que, aqui, a cada turno, pode se acionar quantas unidades quiser. O game não prima pela inovação, apesar de trazer algumas características interessantes; seu maior mérito é ser equilibrado: nem fácil demais a ponto de não exigir estratégia, nem difícil ao extremo, causando frustração. Além disso, adota medidas para que o andamento seja mais dinâmico que os outros games do gênero.
Outro fator bem-balanceado do título é a complexidade da mecânica de jogo. É daqueles que um jogador experiente não morre de tédio, nem o novato fica perdido. Aliás, pensando nesses usuários, o game começa devagar, mostrando apenas algumas de suas facetas básicas. Aqui, em turnos alternados, o jogador e o computador mexem suas peças. O seu objetivo passa por enfrentar os oponentes. Nesse game, o comando de ataque é sempre acompanhado de um contragolpe do adversário (a não ser que ele morra no processo).
Mas, no decorrer da aventura, mais funções são liberadas, de forma gradual. A protagonista, a exemplo de outros personagens que usam o bracelete mítico, tem a capacidade de se transformar. Com isso, passa a usar uma armadura mais extravagante, ganhando novos poderes. Uma delas é o godspeed, que permite mover e atacar várias vezes no mesmo turno, desde que consiga matar oponentes entre um golpe e outro. Poderoso demais, esse é um dos poucos equívocos do jogo. Só não é pior porque a transformação só pode ser feita uma vez por batalha e por poucos turnos.
Cavaleiros dos astros"Jeanne d'Arc" permite grande liberdade para moldar os personagens. É certo que cada um deles tem mais talento para a luta ou para a magia, mas graças ao sistema de jóias, os guerreiros podem assumir as mais variadas tarefas. As pedras acrescentam golpes especiais, magias e símbolos astrais, e melhoram características como força e agilidade. Mas existe uma pequena restrição de uso: os ataques especiais são determinados pelo tipo da arma e nem todos os cristais servem para um referido personagem.
É fácil perceber que as magias, sejam de cura ou de ataque, desempenham papel importante nas batalhas, mas o símbolo astral também tem o poder de decidir a vitória ou a derrota de seu exército. É que existe uma relação triangular de forças entre os três signos: o sol tem ascendência sobre a estrela, que ganha da lua, mas esta, por sua vez, bate o sol. Ou seja, há um ganho ou decréscimo de danos dependendo do símbolo das duas partes envolvidas. Além disso, o signo tem o poder de aumentar a força das magias: o sol, por exemplo, fortalece o fogo.
Em geral, RPGs de estratégia tendem a ser lentos, pois, quando não se pode vencer pela estratégia, os jogadores adotam esquemas cautelosos, de enfrentar um inimigo por vez. Mas, aqui, o jogador precisa agir mais rápido, pois as fases possuem tempo contado (medido em turnos). Além disso, como muitos inimigos usam arco-e-flecha (e outros tipos de ataque de longa distância), ficar parado não é bom negócio. Assim, o jogador precisa armar uma estratégia sem ser a retranca excessiva.
Operação relâmpagoA dificuldade do game não é tão alta, para equilibrar com a necessidade de o jogador adotar táticas mais ousadas, mas, para não criar encruzilhadas, o game traz mapas com batalhas opcionais, de diversos níveis de desafio. Assim, pode-se evoluir a vontade os personagens. Assim, os confrontos mais fáceis. Não é muito difícil aumentar o "level", já que o ganho de experiência costuma ser generoso (além disso, no final, há um bônus que é concedido até para quem não participou da campanha). Mas existem também lutas não-obrigatórias duríssimas, cujo intuito é recolher bons itens.
Esses objetos também podem ser ingredientes para formar jóias feitas a partir da combinação das peças. Naturalmente, esses itens criados a partir da fusão tendem a ser muito mais eficientes que as versões rústicas. É quase uma tradição da Level-5: assim como em "Dragon Quest VIII" ou "Rogue Galaxy", um animal que parece um sapo cuida da junção de objetos.
A cota de inovação fica por conta das burning auras e do union defense. Este tem o intuito de aumentar a defesa, enquanto o primeiro dá um "gás" ao ataque. Isso acontece quando se golpeia um inimigo. Assim, ele pode liberar uma roda de energia. Quem pegá-la tem seu poder aumentado. Certamente é uma vantagem, mas também pode representar uma faca de dois gumes, pois os inimigos também podem usar desse truque. Já o union defense acontece quando há companheiros lado a lado (eles podem estar dispostos diagonalmente, inclusive). Pensar sua movimentação tendo em mente esses dois recursos é a chave para a vitória.
Guerra das trinta horasSão cerca de 30 horas de história. Para não se tornar cansativo, o game está recheado com cenas não-interativas interessantes, algumas em formato de desenhos animados muito bem produzidos. O game também se esforça em variar as metas: nem sempre a eliminação dos inimigos é o objetivo final. Muitas vezes, é preciso proteger pessoas, locais ou objetos, ou chegar à saída da fase até o término dos turnos. As condições de derrota, às vezes, podem ser duras: basta um único companheiro cair para que a missão vá para o espaço.
As cenas de animação e as ilustrações estão ótimas, mas isso não foi bem traduzido para a tela de jogo em si. Os "bonecos" têm um estilo confuso, num meio termo entre a proporção mais realista e a de "minicraque". Ainda, mescla o cel-shading à la "Dragon Quest VIII" com a utilização mais freqüente de texturas. Já o cenário é bem melhor. Apesar de ter formatos simples, a fartura de objetos e texturas ajuda a esconder essa rusticidade. Isso fica bem evidente nos campos de batalha, em que se pode manipular a câmera.
A trilha sonora é típica dos games que se passam na Idade Média, mas tende a ser um pouco repetitivo. Mas a sonoplastia e as dublagens têm ótima qualidade. Como há personagens ingleses e franceses, há uma variação se sotaque, mas contido. Como no restante do game, a palavra de ordem é o equilíbrio.
CONSIDERAÇÕES
"Jeanne d'Arc" é uma mistura de RPG com estratégia que traz uma boa história de fantasia a partir de uma personagem lendária. O maior mérito do game é sua dosagem exata de dificuldade e complexidade: traz uma profundidade de estratégia que faz a cabeça do jogador que está acostumado ao gênero, mas também não é confuso a ponto de afastar o novato. Ainda, introdução dos elementos é feito de forma gradual. Além disso, consegue ser ágil, algo que não é muito comum dentro da modalidade. Por fim, a boa dose de conteúdo faz com que seja uma das melhores opções do estilo para o PSP.