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16/06/2006 - 18h43

Entrevista: "SLotman", o criador de Bola de Gude

por Théo Azevedo

"SLotman", 'pai' de Bola de Gude
A origem é incerta, confunde-se com a da própria civilização - conforme apontaram escavações arqueológicas, pelo menos 4.000 a.C., no Egito e no Oriente Médio, a brincadeira já era popular. Na Roma antiga, o imperador César Augusto tinha o costume de parar na rua para assistir as partidas. Conhecido no Brasil como bola de gude, o jogo serviu de inspiração para José Lucio Mattos da Gama, 31 anos, criar um simulador sobre as pequenas esferas e as várias modalidades para brincar com elas no computador.

Por quê? Bem, o programador do Rio de Janeiro explica que, na sua infância, adorava jogar bola de gude na escola, mas que, atualmente, a brincadeira, anda meio esquecida. Por isso, com a cara e a coragem, SLotman, como é conhecido, programou "Bola de Gude", que leva à tela do computador as emoções da disputa entre as pequenas esferas.

Contudo, o trabalho de SLotman, que começou sem muitas pretensões (ainda que à base de muita dedicação), vem sendo reconhecido no Brasil e até mesmo no exterior. "Bola de Gude" ficou em segundo lugar no Festival de Jogos Independentes no SBGames 2005 e na primeira colocação da CDG 2006, dois eventos nacionais de desenvolvimento de jogos. Além disso, o Bytten, popular site de jogos independentes, deu nota 98% ao game.

Se você ainda não conhece bolinha de gude ou a brincadeira não fez parte de sua infância, "Bola de Gude" é a oportunidade ideal para se divertir, sem complicações: o jogo está à venda por R$ 15 no site oficial da Icon Games, produtora de SLotman. O UOL conversou com o programador brasileiro para saber mais sobre o game e também sobre o desafio de desenvolver jogos no Brasil.

Quando e como você decidiu se tornar um produtor de jogos?

José Lucio "SLotman" Mattos da Gama: Acho que quando ganhei meu primeiro computador, um MSX, aos 11 anos, lá pela década de 80.

Assim que começava a programar alguma coisa, eu já "apagava" partes dos programas que eu tinha para o MSX para ver o que acontecia - por exemplo, apagava um comando e o "sol" que aparecia no jogo deixava de aparecer. Fui aprendendo a programar na base da tentativa e erro e, desde aquela época, já arriscava fazer meus próprios jogos. Era uma coisa bem amadora, mas a vontade e a determinação estavam lá.

Em 2003, após terminar o curso de Design e Desenvolvimento de Jogos 3D, da PUC-RJ, decidi seguir em frente, botar meus conhecimentos em prática e desenvolver um jogo completo a todo custo.

Como surgiu a idéia de desenvolver o "Bola de Gude"?

SLotman: Quando criança, estudei em um colégio muito grande na Tijuca, que tinha muito terreno para a criançada brincar. E jogávamos bola de gude todo santo dia.

Há pouco tempo, retornei à mesma escola por causa da eleição, para votar. Resolvi dar um passeio para relembrar os tempos de infância e qual foi minha decepção ao ver que todos os terrenos foram cimentados! Não dava mais para jogar bola de gude lá. Na hora, veio a idéia de recriar o jogo no computador - pois como nessa escola muitas crianças, atualmente, não têm onde jogar ou sequer sabem que jogo é esse.

Fale mais sobre o processo de desenvolvimento do jogo.

SLotman: Desenvolver esse jogo foi uma loucura. Eu tinha começado a desenvolvê-lo quando soube do concurso JogosBR, então resolvi inscrevê-lo. Infelizmente, a proposta não foi selecionada para receber verba, mas mesmo assim resolvi prosseguir com o desenvolvimento. Foi um ano inteiro de madrugadas em claro, ralando e ainda tendo que levantar no dia seguinte para ir ao "trabalho".

O investimento no jogo foi zero Eu literalmente não tinha verba alguma para contratar ninguém, então tive que me virar e fazer tudo sozinho. Tudo que está no jogo - modelos 3D, músicas, gráficos 2D, efeitos sonoros (o barulho de colisão das bolinhas eu gravei com microfone, batendo uma bolinha na outra) -, absolutamente tudo, foi feito por mim.

Para fazer o jogo, eu utilizei uma linguagem chamada "Blitz3D", que é uma mistura de BASIC com um engine 3D [tecnologia gráfica] que usa DirectX 7. O jogo ficou bem bonito e é extremamente leve - tanto que desenvolvi (e rodo) ele em um Pentium 2 de 400MHz.

"Bola de Gude" é baseado em uma idéia simples, de um jogo tipicamente brasileiro. Para o produtor de games do país é melhor investir em algo nestes termos do que se arriscar em um projeto mais complexo?

SLotman: Depende de vários fatores.

O principal é a verba disponível para se fazer o jogo - se você tiver alguns milhões de dólares sobrando, caia de cabeça e faça um projeto "AAA", como "Doom3", "Fifa" ou o que for. Talento e competência aqui no Brasil para desenvolver algo assim é o que não falta.

No caso dos jogos mais simples, são os mais indicados para a maioria dos desenvolvedores nacionais - não só por serem menos custosos de se desenvolver (o que permite que sejam vendidos por um preço menor ao consumidor), mas por ser um mercado em franca expansão, tanto aqui quanto no exterior. Os famosos "jogos casuais", que não prendem o jogador por horas a fio, servem mais para uma diversão rápida, quando se quer passar o tempo, e não requerem que se desvendem milhões de opções para usufruir o jogo.

O "Bola de Gude" segue esse conceito: você pode jogar em qualquer fase e em qualquer modo quando quiser. É para divertir e relaxar, e não se irritar tentando passar de uma fase e não conseguir porque você não sabe onde está a chave que abre a porta amarela que leva ao próximo nível.

Quanto à temática nacional nos jogos, contanto que não seja uma coisa forçada, pode funcionar muito bem, inclusive sendo um diferencial em relação aos games produzidos no exterior (tanto para os casuais como para os complexos)


Imagem de "Bola de Gude": jogo para divertir e relaxar

Você está conseguindo ganhar dinheiro com o jogo?

SLotman: Muito pouco. As vendas estão baixas, mas acredito mais que isso é devido ao medo que as pessoas têm de comprar pela internet, de um site que não conhecem. É questão de trabalhar e divulgar a ICON Games, e mostrar que é algo sério sendo feito aqui.

Na CDG (Congresso de Desenvolvedores de Games), que ocorreu no início do ano, no Rio de Janeiro, por exemplo, tive contato direto com o público e consegui vender uma quantidade razoável de CDs, pois lá as pessoas podiam experimentar os jogos, conversar comigo, tirar dúvidas etc.

Acredito que as vendas possam melhorar - estou fechando parceria com um portal americano que se interessou pelo jogo -, mas isso ainda deve demorar um pouco para se concretizar.

Quais as maiores dificultadas encontradas por quem decide desenvolver jogos no Brasil?

SLotman: É até bastante simples: verba para o desenvolvimento e distribuição.

A primeira, de uma forma ou outra, dá para driblar, no caso de desenvolvimento de jogos casuais (em jogos mais elaborados a coisa complica).

Já a segunda é o grande problema: não temos no país uma rede de distribuição boa para os produtos nacionais, ou mesmo de divulgação. Nesse quesito, a pirataria dá um banho - em qualquer esquina você vê alguém vendendo CD de jogo pirata; agora se você quer comprar o original, vai ter que andar bem mais do que até a esquina para conseguir.

O problema é tanto, que eu cheguei a enviar e-mails para alguns editores de revistas, para ver se conseguia fazer distribuição do jogo em bancas. Estou esperando resposta até hoje.

A internet é uma das ferramentas que ajudam a romper essa barreira, mas, mesmo assim, ainda temos muita gente sem acesso à internet, ou que simplesmente não acompanha notícias pela mesma.

Acho que falta termos um evento exclusivo de jogos nacionais, para mostrarmos ao público o que vem sendo desenvolvido por aqui, juntando distribuidores e desenvolvedores. Já seria um grande passo.

Você tem projetos novos em mente?

SLotman: Com certeza. Tenho uma grande quantidade de jogos que estão esperando para serem feitos. O próximo já está a caminho - inclusive, inscrevi a idéia no JogosBR desse ano e, embora não acredite que seja escolhido, a esperança é a última que morre.

Como você enxerga a indústria de jogos nacional nos dias de hoje? Há muitos cursos no país, alguns eventos e o Concurso JogosBr está em sua segunda edição. O apoio tem sido suficiente?

SLotman: A indústria está crescendo cada vez mais. Todo dia, novas informações sobre jogos ou eventos estão aparecendo.

O JogosBR tem sido um concurso conturbado - mas, polêmicas à parte, é uma iniciativa boa, apesar de precisar de algumas melhorias. Uma das coisas que faltou, por exemplo, ao concurso anterior, foi divulgar (até mesmo durante o desenvolvimento) fotos, dados ou qualquer coisa sobre os projetos financiados. Até hoje, não se encontra sequer uma foto no site oficial dos projetos aprovados em 2004/2005.

Quanto ao apoio, bem, governo é o governo. Eu fui o vencedor do Festival de Jogos Acadêmicos na CDG, com o "Bola de Gude" em março, e deveria receber um prêmio da FAPERJ, que patrocinou o Festival - prêmio este que iria investir para participar de outros eventos -,mas até hoje não tenho qualquer previsão para receber o mesmo.

O que você gosta de jogar nas horas vagas?

SLotman: Atualmente? Tenho jogado mais jogos antigos, como "Magical Tree", do MSX. No PC, joguei um pouco "Stubbs the Zombie", um jogo muito divertido onde você assume o papel de um zumbi. Mas grande parte do meu tempo passo desenvolvendo jogos ou aprendendo novas técnicas.

No pouco que jogo, tenho preferido jogos que são diferentes do tradicional. Jogos de Corrida, ou "Jogo ano xxxx" eu não tenho mais vontade de jogar.

Para finalizar, o que você diria às pessoas que sonham em trabalhar com o desenvolvimento de games?

SLotman: Continuem sonhando, pois é assim que aparecem as melhores idéias, mas tenham os pés no chão e invistam em vocês mesmos.

Muita gente acha que é só ter uma idéia para fazer um jogo, mas idéias todo mundo tem, e esta é apenas a primeira etapa. Além da idéia, ainda é preciso muito trabalho, para desenvolver, divulgar e distribuir o produto final. E muita insistência e determinação, para não deixar os obstáculos que aparecem lhe abater.

Veja também:
Análise de "Bola de Gude"
Galeria de imagens de "Bola de Gude"
Demo de "Bola de Gude"
Site oficial de "Bola de Gude"

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