A provocação entre jogadores de diferentes consoles ajuda ou atrapalha o mundo dos videogames?
Rara imagem de um Troll flagrado em seu ambiente natural
Tão antiga quanto a própria humanidade, mas aperfeiçoada pela internet, a “trollagem” é a boa e velha provocação pela provocação. Como o ser humano adora atrelar a sua identidade a grupos que podem se formar em torno de qualquer interesse, de moradores de um bairro a fãs de uma banda, não é de se espantar que a escolha de um console também se tornasse fator de discórdia. Eis que nascem os chamados “istas”; como “sonystas” do Playstation, “caixistas” do Xbox e os “nintendistas”, que dispensam apresentações.
Mas será que a trollagem mais ajuda ou atrapalha no mundo dos games quando jogadores começam a se comportar como torcedores de um time? E mais, o quanto as próprias empresas estimulam a formação dos “istas”?
Quando uma marca vira uma tribo
Durante o período de queda da PSN, os chamados sonystas não tiveram que aguentar apenas a falta de funcionalidades multijogador do PS3, mas também a gozação nas redes sociais por usuários de Xbox 360 ou Wii. Nos comentários de uma matéria do UOL Jogos sobre aumento nas vendas do console da Microsoft durante o blecaute um leitor chegou a cutucar: “Vem pra CAIXA você também”. E outro completou: “VEM!” Em outra notícia sobre problemas de bloqueamento na atualização do Xbox 360, os sonystas e nintendistas deram o troco nos caixistas. Nintendo relata queda nos lucros? Usuários das outras duas grandes fabricantes de games caem em cima.
A Nintendo ganhou fidelidade quase religiosa de seus defensores investindo em uma grande gama de personagens memoráveis
A disseminação cada vez maior da presença das empresas nas redes sociais tornou mais próxima a relação entre elas e os consumidores, afinal você pode seguir a Sony no Facebook como se ela fosse um amigo como qualquer outro. Isso gerou um fenômeno interessante apontado nas pesquisas qualitativas de marketing: as pessoas estão cada vez mais antropomorfizando as marcas. E elas cada vez menos se preocupam com a sua imagem, mas com a personalidade que elas projetam.
“A personalidade distinta de uma marca é a chave para o seu sucesso. Ela leva os consumidores a perceber a personalidade da marca e desenvolver com ela uma forte conexão”, lê-se em um estudo feito em 2009 pela Universidade Aletheia de Taiwan que analisou a relação o impacto da lealdade com marca no mercado asiático de videogames. “E porque as marcas tem suas próprias personalidades, os consumidores tendem a trata-las como pessoas reais. Nesse caso, eles esperam que o discurso, as atitudes e o comportamento da marca reflita a sua própria personalidade”.
A Nintendo talvez seja a maior mestra em dar uma “cara” a si mesma, e não por acaso poucos fãs são tão fervorosamente fiéis à sua marca quanto a dos Nintendistas. Mais do que apenas resultado do acaso, trata-se de uma estratégia de marketing da veterana dos videogames que vem de longa data. A Nintendo soube dar um rosto à sua marca através de uma série de mascotes e personagens memoráveis como Mario, Link e Samus.
“Genesis does what Nintendon’t”
A trollagem entre empresas de games é bem comum. Durante a guerra dos consoles dos anos 90 a Sega incitou bastante a Nintendo em comerciais com o slogan “Genesis does what Nintendon’t” e outros igualmente memoráveis que não se sabe como não acabaram em processos. Incluindo um no qual, munido de um autofalante, Crash Bandicoot chama Mario para a briga no estacionamento da Nintendo. Kevin Butler, o fictício vice-presidente de qualquer coisa da Sony, é um personagem “Nascido para Trollar” e já provocou os controles do Wii e do Kinect do Xbox 360 no vídeo de anúncio do Playstation Move (veja trollagens famosas que a Nintendo foi vítima).
Incentivar a formação de tribos fiéis a uma marca talvez sejam importante hoje mais do que nunca, uma vez que as bibliotecas de títulos entre os consoles são muito mais semelhantes do que em gerações passadas. Hoje o Wii é o único “estranho no ninho” dos consoles, sendo mais difícil de portar jogos devido a hardware e controle, e Sony e Microsoft tentam se diferenciar pelas funcionalidades online e “personalidade”, além dos cada vez mais raros blockbusters exclusivos como o “Gears” ou o “God”, “of War”.
Nas conversas para a criação dessa Além do Jogo muitos colegas de redação se mostraram bem contrários aos “ismos”, e não acham certo jogadores se comportarem de uma forma um tanto bairrista ou como torcedores, humilhando rivais só porque gostam mais de um console.
Chame-me de “trollista” se quiser, mas acho muito bom fomentar a discórdia desde que o bom-humor, seja você hoje o troll ou o trollado. Se concorda, contribua abaixo com seu depoimento. Se acha que sou louco, trolle aí também nos comentários.
Anúncios da Sega nos anos 90 mostram a forma pouco sutil com a qual as empresas de videogames às vezes se provocam
A coluna opinativa Além do Jogo trata do impacto dos videogames no chamado mundo real. Publicada às quartas-feiras no UOL Jogos.
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