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Feito com ajuda de índios do Acre, "Huni Kuin" será game gratuito para PC

Divulgação
Imagem: Divulgação

Théo Azevedo

Do UOL, em São Paulo

2015-07-28T16:35:16

28/07/2015 16h35

Pesquisar a origem de certos jogos é se deparar com historias inusitadas: enquanto "Pac-Man" foi inspirado em uma pizza da qual faltava um pedaço, Mario acabou assim batizado para homenagear Mario Segale, proprietário da sede da Nintendo nos Estados Unidos na década de 1980.

“Huni Kuin – Os Caminhos da Jiboia”, jogo brasileiro baseado nas histórias, mitos, cantos e rituais dos caxinauás (ou huni kuin), indígenas do Acre, também nasceu de forma, no mínimo, interessante: em rituais com o chá ayahuasca, bebida alucinógena conhecida como Chá do Santo Daime.

“Durante os primeiros rituais tive seguidas visões com o jogo: os índios desenhados como bonequinhos animados, a jiboia, as histórias, cantorias, os efeitos visionários”, revela Guilherme Meneses, antropólogo que idealizou “Huni Kuin”. “Vi que seria um jogo de plataforma em 2D, num estilo mais ‘clássico’ e, principalmente, que deveria ser distribuído gratuitamente”, completa.

Especializado em etnologia ameríndia, Meneses visitou as aldeias caxinauás para pesquisar a produção do jogo, que funciona de forma bastante similar a um game de plataforma, onde o personagem pula e, neste caso, ataca com arco e flecha, lança ou borduna, esta última uma arma indígena. Há quebra-cabeças e o protagonista deve coletar plantas, alimentos e outros itens.

Game de índio

Os indígenas participaram da produção de “Huni Kuin”, especialmente na concepção do roteiro que permeia as cinco fases do game, função que ficou por conta dos pajés. “Os índios mais jovens fizeram os desenhos que aparecem nas cenas de corte do jogo e que serviram de inspiração para a artista criar os conceitos. Além disso, os indígenas gravaram o áudio de seus cantos”, explica Meneses.

A maior motivação por trás de “Huni Kuin” é reforçar a luta contra o preconceito que assola as comunidades indígenas até hoje. Além disso, claro, disseminar também a cultura dos caxinauás. Há, por exemplo, uma mecânica baseada na ideia de Yuxibu, que significa “dono da floresta”: se você mata muitos animais ou retira muitos recursos da floresta, esta reage deixando o jogo mais difícil.

“Com este jogo, além de buscar um espaço para temas nacionais e diferentes dos clichês dos videogames atuais, pretendemos possibilitar que mais pessoas, desde crianças a adultos, possam respeitar e valorizar os povos indígenas, reconhecendo o valor de sua cultura, modo de vida e espiritualidade”, aposta Meneses.

A princípio estão previstas apenas versões para PC e Mac, mas como o jogo foi feito com a tecnologia Unity3D, há intenção de levá-lo aos celulares – algo, porém, que não está previsto no orçamento original.

O dinheiro para bancar a produção de “Huni Kuin” veio, principalmente, do projeto Edital Rumos 2013-2014, do Instituto Itaú Cultural

A dúvida que fica é: potencial educativo e cultural à parte, “Huni Kuin” será um jogo divertido, no final das contas? Para Meneses, uma obra cultural não se opõe à diversão: “Nosso intuito é que o jogo sirva como um canal para as pessoas conhecerem os povos indígenas e seus modos de vida, superarem preconceitos e buscarem formas de cooperar com suas lutas. Este objetivo só vai ser atingido se o jogo for divertido, caso contrário as pessoas não irão jogar, e, consequentemente, não irão conhecê-los”.

A versão completa de “Huni Kuin” será lançada apenas no 1º trimestre de 2016, mas uma demonstração deve ser exibida em agosto, num evento do Itaú Cultural a ser realizado na cidade de São Paulo.

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