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Análise: "The Crew 2" é um playground gigante, mas vazio de aventuras

Rodrigo Trindade

Do UOL, em São Paulo

20/07/2018 04h00

Sempre confiante em suas franquias, a Ubisoft não se abalou com a recepção mista do “The Crew” original, investiu recursos e ampliou a ideia do jogo original em “The Crew 2”. Produzido pelo estúdio francês Ubisoft Ivory Tower, a sequência ao game de corrida em mundo aberto impressiona pelo escopo enorme de seu mapa, mas ainda apresenta problemas significativos que impedem que a série suba ao patamar de outras referências no gênero de corrida.

Lançado no dia 29 de junho por R$ 199,00 nas versões digitais de Xbox One, PlayStation 4 e PC (as físicas custam R$ 249,00), “The Crew 2” te coloca no comando de um novo desafiante ao cenário americano de corridas, sejam elas de rua, offroad, de lancha ou avião. O jogador é introduzido a uma história de concorrência por popularidade, representada pelo número de seguidores acumulados em uma rede social fictícia.

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Há quatro eixos “narrativos”, se é que dá para chamá-los assim. Eles são divididos por modalidades competitivas, cada uma delas apresentada por uma espécie de mestre do protagonista anônimo do game. Todos os elementos de história são desconexos, mal contados e dispensáveis. Apesar disso, não os considero um fator negativo do game, que tem como foco a ação pelas ruas, rios e céus dos Estados Unidos.

A narrativa é um pretexto para que o jogador encontre missões espalhadas pelo mapa gigantesco do game, que permite uma viagem ininterrupta de Nova York até Los Angeles, por terra ou pelo ar. No começo, pouco está disponível para jogar, porque cada um dos quatro eixos de história traz subdivisões de categorias esportivas.

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Carros e motos podem concorrer no mesmos eventos Imagem: Divulgação

A princípio, o jogador obtém quatro veículos gratuitos: um carro, um buggy offroad, uma lancha e um aviãozinho. Cada um deles funciona em competições específicas, que são limitadas inicialmente pelo nível de notoriedade do protagonista. É preciso participar das corridas das quatro “organizações” do jogo para obter prestígio e evoluir de desconhecido para popular, para famoso, para celebridade e depois ícone.

Fora os eventos tradicionais, pequenos desafios estão espalhados pelo mapa e contribuem para o acúmulo de seguidores, indispensáveis para que a oferta de coisas a fazer aumente. O tipo de prova mais divertido é da Live Xtrem Series, uma espécie de programa de TV existente dentro do jogo que te faz percorrer longos circuitos com transições automáticas de veículos, representando bem o espírito de "The Crew 2".

Mapa grande, variado e detalhado

A promessa de atravessar os Estados Unidos em busca de aventura e adrenalina é correspondida por “The Crew 2”, que apresenta um parque de diversões enorme e variado, que por si só já impressiona e diverte. Dá para passar minutos explorando as ruas de Nova York, pegando estrada rumo ao sul de Washington até Miami, ou voando do Grand Canyon até San Francisco.

Não é um mapa com dimensões reais, nem contém todos os Estados norte-americanos, mas ele é rico em detalhes marcantes dos lugares presentes. Pontos turísticos como a ponte Golden Gate ou a Estátua da Liberdade estão no game, assim como os pântanos de New Orleans.

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"The Crew 2" apresenta grande variação de estilos de corrida Imagem: Divulgação

Apesar de toda essa atenção aos detalhes, o game deixa a desejar na oferta de corridas, especialmente no começo. Pilotar pelos Estados Unidos é divertido por si só, mas a quantidade de eventos estruturados para disputar é pequena, o que dificulta o acúmulo de seguidores e o desbloqueio de novas tarefas.

Conforme novas modalidades são destravadas, esse problema é reduzido. Ao subir o nível de popularidade, o jogo disponibiliza mais desafios de todas modalidades, aumentando a oferta daquelas que já foram desbloqueadas e liberando o acesso àquelas que não podiam ser acessadas anteriormente.

Dinheiro, progresso e loot

Depois de explorar o primeiro nível de modalidades, compostas por corridas de rua básicas, um rally contra o relógio de buggy, acrobacias aéreas com o avião e corridas de lancha, outras quatro são liberadas.

Para competir nelas, é necessário usar o dinheiro acumulado até então, o que introduz elementos de escolha para o jogador. Invisto em uma moto de motocross ou em um carro de turismo? Dependendo do que for selecionado, não terei recursos imediatos para pegar um ou outro veículo, o que limita as modalidades que eu vou poder competir.

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Aviões e carros mais avançados pesam no bolso Imagem: Divulgação

Nos primeiros níveis de popularidade isso não é tão problemático, já que os preços dos veículos são relativamente baixos. Porém ao chegar ao terceiro e quarto níveis, o custo para reforçar a frota começa a pesar, fazendo com que a disputa de provas tipo Fórmula 1 fique restrita a um investimento considerável de dinheiro.

O progresso não é feito só com a compra de carros, motos, lanchas ou aviões. O game permite que todos os veículos sejam aprimorados com peças obtidas nas corridas, tarefas secundárias ou até em caixas encontradas escondidas pelo mapa. Todos entregam um loot aleatório, que resulta em peças melhores para o veículo usado no momento da coleta.

Essas podem ser melhores pneus para carro, uma turbina melhor para os barcos ou um motor mais potente para seu avião. As peças costumam ser sempre melhores do que aquelas que estavam em uso até o loot aparecer, porém podem apresentar níveis de raridade menores ou maiores. Os itens verdes são incomuns, os azuis raros e os cor-de-rosa épicos. Um quarto nível, lendário, será introduzido em uma atualização planejada para dezembro.

Jogabilidade irregular

“The Crew 2” apresenta 14 modalidades distintas de eventos, sendo que as corridas de rua podem ser disputadas por carros e motos. Isso significa que existe uma variedade enorme de veículos, que se diferenciam bastante na hora de competir nas pistas, fora delas, ou em outros campos.

Nas modalidades básicas, tudo funciona bem. As provas offroad, assim como acrobacias aéreas e as de lancha trazem sensações completamente diferentes e respondem bem aos controles. Na pista, os carros e motos de corrida de rua ainda deixam um pouco a desejar, em parte pela sinalização dos trajetos, mas também por faltar aquela precisão de jogos mais estabelecidos no gênero.

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Corridas offroad são as de qualidade mais constante em "The Crew 2" Imagem: Divulgação

O jogo da Ubisoft mira um estilo mais arcade, como “Forza Horizon”, mas não tem uma jogabilidade no mesmo nível da do game exclusivo de Xbox. Ainda assim, “The Crew 2” é competente e traz uma diversidade grande de modos para compensar as mecânicas não tão aprimoradas de seus carros de pista.

A modalidade mais problemática é a de drift, que exige derrapadas para acúmulo de pontos nos circuitos repletos de curvas. A proposta é que os carros sejam imprecisos, mas a sensação que ficou é que eles exageram na falta de precisão, o que deixa os veículos desse tipo quase incontroláveis.

Outras também deixam a desejar, como os carros de turismo e as corridas aéreas contra o relógio, porém nelas é possível se sentir no controle na ação, ao contrário do drift.

Fácil de se perder, difícil de prender

Pela natureza solta, “The Crew 2” traz um mundo que é ótimo para ficar horas correndo, navegando ou voando sem grandes preocupações. Só que isso, por si só, não é suficiente para prender a atenção do jogador, a não ser que ele tenha muito interesse em conhecer todos os cantos dos Estados Unidos.

A Ubisoft tem um plano de manter os donos do jogo engajados até 2019, prometendo três grandes atualizações, cada uma com uma nova modalidade, além de uma dupla de carros nova por mês nos 11 meses depois do lançamento.

Pela sensação de mundo vazio que o jogo passa, especialmente no começo, esses pacotes serão necessários. “The Crew 2” é um passo certo da Ubisoft com a franquia, mas ainda está longe da perfeição. Quem sabe com um pouco mais de carinho nas mecânicas e na história a série decole de vez.

Nota: 7