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Crackdown

14/02/2007 19h12

À essa altura, games "inspirados" em "Grand Theft Auto" não são mais novidade para ninguém e "Crackdown", essencialmente, usa a mesma fórmula consagrada pela Rockstar. No entanto, o diferencial é que ele tem "pedigree", afinal, foi idealizado por um dos criadores originais da franquia "GTA", David Jones.

Com essa credencial, o que Jones faz é "apimentar" a receita original, expandindo o cenário na vertical e exagerando os poderes do protagonista. O resultado é um game sem amarras, com uma sensação de liberdade muito maior. E essa agilidade, combinada com algumas das cenas de ação mais intensas dos games, é que faz de "Crackdown" algo tão irresistível. Só é uma pena que isso não dura tanto quanto seria desejável.

Guerra na Cracolândia

"Crackdown" é um game de ação que traz um mapa enorme para explorar, seja a pé ou de carro. Mas nada de ficar andando devagarzinho, pois o protagonista possui poderes sobre-humanos, capaz e saltar de prédio em prédio - ao menos quando você estiver bem desenvolvido -, de longe, a maneira mais eficiente e divertida de passear pela cidade. Além do objetivo principal, que é livrar a metrópole da criminalidade - com direito a muita pancadaria e tiroteio -, há missões paralelas, opcionais, também.

O game acontece em Pacific City que, tal e qual o oceano de mesmo nome, de pacífico não tem nada. Aqui, quem manda são as organizações criminosas. As três ilhas principais da cidade são dominadas por três grupos distintos: os latinos dos Los Muertos, os russos do Volk e os chineses de Shai-Gen. O estereótipo é proposital, pois o game tem um clima de história em quadrinhos, com direito a superpoderes. Ou quase.

É onde entra o protagonista, um integrante novato da Agência, uma organização mundial de policiais, que utilizada todas as armas, inclusive a manipulação genética e a clonagem para enfrentar a bandidagem. Isso explica os poderes exagerados e o fato de você "ressuscitar" depois de morrer (na verdade, uma cópia entra em seu lugar).

O enredo é apenas para indicar qual é o objetivo primordial do jogador, pois, depois disso, não há nenhum roteiro mais encorpado. Sendo assim, também não espere um final espetacular. Às vezes, é preciso sacrificar alguns aspectos para ganhar em outros. E em "Crackdown", quem leva a melhor é a liberdade.

Muito feijão e farinha

No começo, como um agente novato, seus poderes são bastante limitados, pouco melhores que os de um humano comum. Mas esta é só a primeira impressão. Ao desenvolver o seu personagem, como num RPG, ele vai ficando cada vez mais poderoso. Quase um super-herói.

A característica mais importante é a agilidade, que define a velocidade e o poder de pulo. Nos níveis mais avançados - todos os quesitos vão até quatro estrelas -, o policial é capaz de saltos gigantes, que dariam inveja ao Homem-Aranha e ao Hulk. É como estar vivendo aquela cena de "Matrix" em que os personagens saltam de prédio em prédio.

O equilíbrio é brilhante. Como dito, no começo, o personagem é bem fraquinho, mas é relativamente rápido subir de "nível" nas partes iniciais. Cada vez que ganhar mais agilidade, você tem maior acesso à cidade, que, se não é tão grande em área, tem muito a oferecer com seus altos prédios e construções. A agilidade se conquista essencialmente pegando ícones chamados orbs - os de cor verde -, que geralmente estão no alto das casas e edificações. A caça a esses objetos passa a ser uma obsessão no afã de melhorar a condição atlética do policial - além de representar uma conquista ao pegar todos os 500 exemplares.

O restante dos atributos vai sendo desenvolvido na medida em que você utilizá-los. Matar os bandidos com pistolas, metralhadoras e espingardas faz com que sua habilidade em atirar seja melhorada. Se o fizer com socos e voadoras, é seu atributo físico que sobe, e isso permite carregar objetos mais pesados e ter uma barra de vida maior.

Ao usar explosivos, estes passam a ter maior alcance e poder, e, por fim, atropelando e fazendo manobras com o carro melhora a habilidade na direção e faz com que os carros da agência fiquem turbinados - não apenas mais rápidos, mas também com funcionalidades extras, como a inclusão de armas.

Mandando tudo pelos ares

"Crackdown" é daqueles games que diverte somente em controlar o personagem. Isso acontece não apenas pela experiência libertadora dos superpulos, mas porque os comandos são simples e extremamente ágeis. A resposta é imediata, ajudada pelo ótimo desempenho do game, que roda muito suave. Enfim, quem já jogou algum game de ação e tiro em terceira pessoa não vão encontrar a mínima dificuldade e mesmo os novatos devem se acostumar rapidamente.

Essa mecânica prática também é levada para os tiroteios, outro aspecto que merece elogios. Há dois tipos de mira, cada uma com suas vantagens e pontos negativos: a manual permite acertar em qualquer parte da tela e tem uma boa sensibilidade; a automática é mais prática, mas sua precisão só aparece depois de deixar a mira travada por algum tempo. Em alvos próximos, isso acontece rapidamente, mas com um inimigo mais distante, pode demorar vários segundos. A velocidade de focalização da retícula depende do nível de habilidade do personagem. Enfim, é um sistema justo, que mantém o equilíbrio do game.

No entanto, para usar os golpes corpo-a-corpo, os controles são um pouco mais erráticos: a câmera se mexe bruscamente quando se usa o modo automático e é complicado para acertar no manual. Há mais: às vezes, o game falha em discernir a distância entre você e o inimigo, e fica aplicando golpes curtos com o botão de atirar, mesmo quando o oponente está há pelo menos dez metros afastado. Isso costuma acontecer quando você e o adversário estão em níveis diferentes de altura.

As armas mais divertidas são naturalmente aquelas mais potentes, como o lança-foguete, capaz de mandar, literalmente, tudo pelos ares. Há poucas coisas tão satisfatórias como lançar um projétil explosivo naquela concentração de inimigos - se tiver objetos inflamáveis e automóveis por perto, melhor ainda. Os golpes também ficam bacanas depois, quando se consegue arremessar e chutar até mesmo um caminhão.

Em "Crackdown", para conseguir armas, você tem que roubar dos oponentes. Para incluí-las permanentemente em seu arsenal, é preciso levá-las para uma das Supply Points, que serve como base de operações, permitindo, inclusive transportar o jogador para qualquer uma delas, desde que tenha acessado essa Supply Point pelo menos uma vez. Esses também são os locais onde o jogador ressuscita. O policial é capaz de levar duas armas e um tipo de granada.

Atrás das linhas inimigas

O objetivo principal do game é eliminar os "cabeças" das organizações criminosas. Você pode ir direto para o quartel-general deles - desde que saiba onde ele fica -, mas a tendência é que a guarda seja muito dura. O caminho natural é, antes, derrotar os líderes das facções, espalhados pelas redondezas. (O setor de informação rastreia a localização deles quando você chegar perto de onde eles estão).

Assim, com todos os líderes derrotados (eles são apenas bandidos com mais energia e com uma arma melhor), o chefão da organização não oferece muita resistência. Depois de derrotá-los todos, ainda há um último foco de resistência do bando, e pondo fim nisso, a seção estará finalmente livre da criminalidade. Derrotar todos os 21 bandidos pode ser feito em cerca de 10 horas na dificuldade mais branda, a tough. O desenvolvimento completo do personagem também não costuma demorar muito mais que isso. Ainda há mais o que fazer, mas não chega a ser tão divertido.

Há corridas de carro (nos marcadores magenta) e a pé (verdes), mas eles soam muito burocráticos. Os eventos motorizados chegam a ser frustrantes, pois se enfrenta muitos congestionamentos e fatalmente aparece um monte de pedestres para atrapalhar sua vida (matá-los representa decréscimo em sua experiência). É difícil atropelar os bandidos, mas parece que os transeuntes pulam para cima de seu carro.

Além disso, há mais 300 orbs azuis para pegar. Esses, e algumas outras tarefas, são coisas que você provavelmente vai querer completar só pelas conquistas, que somam 900 pontos (os outros 100 virão em downloads adicionais). Sobram alguns objetivos interessantes ainda, como matar 200 bandidos sem morrer, mas muitos são chatos.

Exército de um homem só... ou dois

A produtora Realtimes Worlds conseguiu dar um passo adiante no que se refere a multiplayer cooperativo em games do tipo "GTA". Agora há finalmente uma modalidade em que dois jogadores têm total liberdade para fazer as campanhas. No entanto, o recurso não é perfeito. Quando um outro jogador "entra" em seu jogo (e caso decida aceitar), a partida é reiniciada. O mesmo procedimento acontece quando ele se desconecta do game.

Obviamente, muito melhor seria se os jogadores entrassem e saíssem com o game em andamento, mas deve haver razões para a produtora ter optado por esse método. Nesse quesito, ninguém ainda fez como a Atari em "Test Drive Unlimited", que derrubou a barreira entre o offline e o online.

A ação cooperativa tem potencial para ser muito divertido. O melhor é sempre combinar com um amigo, para jogar a campanha inteira juntos, que rende uma conquista extra. Você pode usar a modalidade para chamar alguém que esteja evoluído e ajudar na sua missão. Jogando com desconhecidos, o ideal é procurar aqueles que estão num nível de progressão similar ao seu. Os jogadores não precisam disputar os orbs, pois eles aparecem para os dois jogadores.

A edição testada por UOL Jogos ainda tinha problemas de lentidão na conexão, que promete ser sanado com um download corretivo quando o game for lançado comercialmente. Mesmo jogando com rede local (pena não haver modo com tela dividida), há pequenos "lags".

O game aparentemente avalia o estado de sua conexão, não permitindo, por exemplo, que serviços com baixa velocidade de upload - como o Speedy, da Telefonica, em nossos testes - sejam mandantes ("host") de uma partida. Isso é ruim porque o "save" a ser usado é o do "dono" da sessão.

Além do modo de campanha, há também um Time Trial, que é uma batalha contra o relógio até matar o chefe da fase. Também pode ser jogado cooperativamente.

"Yo voy a matar!"

O game não impressiona pela beleza - é um misto entre o grafismo tradicional e o cel-shading imitando quadrinhos americanos -, mas pela amplitude de visão. É possível avistar o cenário mesmo que esteja muito distante e isso ajuda na hora de procurar pelas orbs. Há falhas de "pop up", em que objetos aparecem de repente, e de estabilidade, mas são muito raros. Em geral, o jogo roda muito suave, apesar do enorme mapa. Não há "loadings" durante o game, a não ser quando você morre ou usa as Supply Points para se teletransportar para outro ponto.

A simulação de física usa técnicas como o "ragdoll", em que o personagem é arremessado como um boneco. Mas como o clima do game é quase de quadrinhos, isso nada incomoda; traz até um toque de humor. As explosões são exageradas e causam grande satisfação. As animações também estão boas.

A sonoplastia é competente, trazendo efeitos de bastante impacto, principalmente a das armas. A dublagem se resume a de um narrador, que faz comentários e dá algumas dicas para o jogador, com uma voz que cairia bem num desenho de super-herói. Os bandidos possuem apenas algumas linhas repetitivas - você já deve estar acostumado a ouvir impropérios em espanhol em games, desde que "Resident Evil 4" popularizou o "expediente". A música, para seguir a fórmula, aparece apenas quando se entra em carros, mas parece que você está mesmo num elevador, tal a irrelevância da trilha sonora.

Dependência de joystick

"Crackdown" nem de longe é perfeito. O conteúdo não é dos mais densos (muitos objetivos são apenas burocráticos), mas você provavelmente não deverá largar do controle até, pelo menos, eliminar todos os bandidos e fortalecer seu personagem ao máximo - ele tem esse magnetismo irresistível de fazer esquecer de tudo enquanto dura a partida. Infelizmente, fica com um gosto de quero mais. Talvez, os conteúdos adicionais venham a resolver o problema.

Nota: 9 (Excelente)