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Def Jam: Icon

16/03/2007 21h43

A influência do hip-hop e de suas grandes celebridades na cultura popular norte americana é evidenciada por produtos como "Def Jam: Icon". O terceiro "Def Jam" é uma investida da produtora musical homônima, especializada no gênero hip-hop e responsável pela revelação de muitos nomes da black music contemporânea.

Não por coincidência, em "Icon" você joga com alguns dos mais populares rappers norte-americanos, enquanto a pancadaria rola solta ao som de músicas já bastante disseminadas ou inéditas. O jogo também marca a chegada da série à nova geração de consoles, trazendo novidades que, aparentemente, são interessantes o suficiente para chamar a atenção de jogadores que nunca deram a mínima para o hip-hop. Contudo, deixa a inevitável impressão de que se trata de um jogo incompleto.

Universo hip-hop

Embora "Icon" seja um jogo de luta, sua modalidade principal traz uma história dividida em pequenas e esporádicas seqüências animadas, que carregam aquele clima de cinema americano. Você começa como um indivíduo qualquer, que se envolve com um grande produtor de hip-hop e aos poucos vai ganhando sua confiança, passando a exercer uma função similar.

No começo, quase não há grana, sua moradia é uma espelunca e suas roupas fariam qualquer um confundí-lo com um marginal. Através de um computador, você recebe e-mails com tarefas de seu mentor, reclamações e exigências dos artistas com os quais está trabalhando etc. Além disso, tem um controle administrativo bastante limitado de seus artistas, podendo investir dinheiro em músicas, que refletem em suas posições nas paradas da Billboard, que também podem ser consultadas através do computador.

Embora seja interessante investir em talentos, vê-los subindo nas paradas e receber o retorno financeiro, tudo é muito automático. Mesmo que você não invista um tostão em uma música, provavelmente verá seu nome nas paradas e receberá um bom capital pelo seu sucesso. Melhor é acumular dinheiro para bancar custos aleatórios de seus rappers, garantindo uma boa relação, ou torrá-lo nas lojas de roupas, jóias e tatuagens, que oferecem centenas de opções de personalização para seu personagem.

Durante algum evento aleatório do jogo, o jogador pode ainda conhecer sua cara metade e iniciar um namoro. Seria algo interessante se o relacionamento não se resumisse a e-mails de sua "amada", pedindo presentes e jantares de preços exorbitantes. Uma posição bastante machista, visto que durante todo o jogo a mulher é, basicamente, um objeto sexual, aparecendo sempre em trajes curtíssimos, além de viver às custas do namorado.

Pancadaria musical

Depois da pacífica sessão em frente ao computador, é hora da pancadaria. Através de um pequeno mapa, você escolhe uma das missões recebidas por e-mail, que geralmente envolvem eliminar um fã ensandecido de algum de seus rappers ou dar o troco em funcionário da gravadora que deixou uma música inédita vazar na internet etc.

Naturalmente, a história do jogo e todos os eventos que se sucedem refletem o universo dos rappers e de seus produtores, mas de uma forma bastante ficctícia, obviamente. Contudo, além das seqüências animadas serem raras, a história é fraca e se revela um mero acessório para as brigas.

As lutas em "Def Jam: Icon" são simplistas: todos os golpes são baseados em chutes, socos e agarrões. Contudo, há variações, como os especiais, como voadoras, realizados com movimentos simples do direcional analógico direito - um resquício da tecnologia empregada em "Fight Night 3", que usa a mesma mecânica de movimentos do direcional para a execução de socos.

Apesar de ambos os jogos terem enfoques totalmente diferentes, as lutas são muito parecidas e compartilham dos mesmos problemas. Um exemplo é a falta de variedade da ação, mesmo que "Def Jam: Icon" ofeceça diferentes estilos de luta. É uma mecânica que se baseia na tentativa de prever o golpe do oponente para contra-atacar, ao invés de permitir técnicas variadas.

O grande chamariz do jogo, no entanto, é a sincronia da ação com a música. Todos os elementos que compõem os ambientes vibram, pulsam ou movimentam-se de acordo com a música e suas batidas. Todos os cenários possuem certas áreas de perigo, como uma lareira que cospe fogo, um lava-rápido que golpeia ou a caixa de fusíveis que eletrocuta, mas que só causam tais efeitos em determinados momentos da música.

Embora seja útil conhecê-las, para saber em quais momentos você deve evitar as áreas de perigo ou lançar seu oponente, há algo ainda mais interessante: o controle da música. Mantendo o gatilho pressionado e movimentando o direcional analógico direito, seu personagem simula um 'scratch' (movimento realizado por DJs de um disco nos dois sentidos, com as mãos). Neste momento a música se distorce em tempo-real, de acordo com o movimento do direcional e, após alguns segundos, o efeito das áreas de perigo é ativado. Uma estratégia comum é lançar seu oponente para algum desses pontos e realizar o 'scratch', causando-lhe um dano considerável.

Outro elemento da jogabilidade é a troca de música, que pode ser feita através de um esquema similar, em qualquer ocasião. Ao escolher seu personagem, você decide também qual música o representará. Enquanto ela estiver tocando, seus golpes serão mais fortes. Com a troca de música, a situação se inverte.

Todos esses elementos ajudam a manter o jogo interessante por algum tempo, principalmente nas partidas para dois jogadores. Contudo, o que parece é que os desenvolvedores se empolgaram tanto com a idéia de criar um jogo de luta musical, que se esqueceram de aprimorar sua fórmula, deixando-o limitado.

O jogo possibilita também que você carregue suas próprias músicas instaladas no HD do console ou em drive externo, como um MP3 player, permitindo que você lute contra um amigo, cada qual com sua própria música. Entretanto, diferentemente das músicas que fazem parte da trilha do jogo, os cenários não seguem efetivamente o ritmo das músicas externas. Nem mesmo os 'scratchs' distorcem a música em tempo-real.

Compensando no visual

Apesar do jogo ser foto-realístico, não há necessariamente um compromisso com a realidade - e sim, com o estilo gráfico. No posto de gasolina, por exemplo, os prédios ao fundo são como recortes de papel e pulam constantemente em sincronia com a música. Na mesma arena, quando um lutador é arremessado para cima de um carro, além de amassar, ele é fragmentado, como se fosse uma colagem.

Os cenários são um show a parte. Além da riqueza de detalhes, profundidade e objetos que se movimentam em sincronia com a música, são altamente destrutíveis. Em um deles, um grande salão, por exemplo, quando um lutador é queimado pela lareira, o fogo propaga-se lentamente pelo teto, até virar um grande incêndio. Na boate, há centenas de pessoas ao fundo que dançam e pulam no ritmo da música e efeitos de luzes - simplesmente impressionante.

A estética altamente gráfica do jogo gera um contraste interessante com os modelos e cenários realistas, evidenciando uma direção de arte impecável. O trabalho de cores também é bastante competente. Cada fase possui, em geral, poucas cores, com diferentes tonalidades - como, por exemplo, a arena do telhado, basicamente azul. Quando um personagem se aproxima da morte, as cores e a luz se intensificam, gerando um alto nível de contraste. Outro exemplo: quando seu inimigo faz o 'scratch' e troca a música para sua própria, a fase ganha uma forte tonalidade azulada.

Faltou profundidade

"Def Jam: Icon" traz novidades interessantes não só à série, mas ao gênero luta. E embora tente conquistar um publico que não se interessa pelo mundo do hip-hop, falha ao permitir o uso de músicas externas. A falta de variedade das partidas também diminui consideravelmente seu fator 'replay'. Se ao menos houvessem diferentes modalidades de jogo, além dos tradicionais modos história, arcade e prática, "Def Jam: Icon" poderia oferecer uma experiência muito mais profunda e satisfatória.

Nota: 6 (Razoável)