Análises

Portal 2

RODRIGO GUERRA

Colaboração para o UOL

Era uma vez um jogo que nasceu como um experimento - um teste para a Source Engine, a ferramenta de criação de jogos da Valve Software. E o resultado foi além das expectativas, tanto que mereceu um lugarzinho no "Orange Box", uma coletânea que reuniu em um único disco "Team Fortress 2", "Half-Life 2" e seus dois episódios, além de "Portal" - o objeto de estudo.

Nascia ali um dos games mais revolucionários dos últimos anos que arrancou elogios da crítica e do público. Agora "Portal 2" tem a honra de chegar ao mercado em um disco próprio, trazendo consigo uma penca de novidades, quebrando paradigmas e, mais uma vez, superando expectativas.

Lá e cá

A Valve levou "Portal 2" muito a sério. A evolução em relação ao primeiro jogo é tão nítida e clara que, sob muitos aspectos, a impressão que fica é que houve um salto de geração. Os cenários são muito mais coloridos e variados, adicionando mais que o amarelo e azul dos portais ao 'branco hospital' dos laboratórios de Aperture - a instituição de pesquisas científica que Chell, a protagonista, vive sua aventura.

"Portal 2" coloca na prática (quase) tudo que se aprende em uma aula de física - só que de uma forma mais divertida e interessante. Munido com a Portal Gun, o jogador desafia as leis do tempo e espaço unindo dois pontos distintos com portas de entrada e saída. Um portal de entrada pode ser colocado em uma parede próxima ao jogador e sua saída no teto do outro lado da sala - isso é a teoria dos 'buracos de minhoca' aplicada na prática.

Veja o trailer da E3 2010

Assim como o primeiro jogo, a dificuldade dos quebra-cabeças é progressiva e vai além de cruzar distâncias. Às vezes é necessário usar as aberturas para alcançar plataformas, em outras ocasiões é necessário ganhar impulso para saltar grandes distâncias, e esses elementos vão se acumulando com novos truques que são ensinados em cada nova área descoberta. Os portais podem ser usados para desativar robôs, mudar a trajetória de raios de luz ou escapar de armadilhas.

Agora existem diversos elementos que dão vida ao jogo, como as cores vivas e berrantes dos emulsificantes descobertos no centro do planeta. Esses líquidos fazem parte integrante da aventura pois, além de criar novos quebra-cabeças, explicam o passado dos experimentos científicos.

Na prática, cada líquido altera a forma que o ambiente funciona. O gel azul permite pular mais alto, já o laranja faz com que Chell corra mais rápido e o branco permite criar portais em locais que antes eram impossíveis. Pintar o cenário com esses produtos é um desafio que é capaz de queimar neurônios, mas que é infinitamente divertido.

No modo cooperativo online o desafio e a diversão são multiplicados. Cada jogador controla um robô de testes e eles devem passar por desafios que exigem trabalho em equipe. Enquanto um cria um portal para ajudar o companheiro a alcançar uma área fora de seu ângulo de visão, o outro leva uma caixa para colocar no botão que abre a porta para a próxima área. Isso é um dos desafios básicos, conforme os robôs vão seguindo em frente, mais cabeludas são as tarefas para seguir em frente.

A grande novidade nessa parte é a união entre os jogadores de PC e de PlayStation 3 com o Steam - a rede da Valve que faz o intermédio entre as duas plataformas . Além de permitir a jogatina entre plataformas tão distintas, o game permite fazer chat de voz e texto, além de poder começar a jogar no console e terminar no computador. É uma pena que os jogadores de Xbox 360 ficaram de fora da festa.

Conheça os personagens do modo cooperativo

Inimigo meu

A maior estrela, no entanto, é a história do jogo - principalmente para aqueles que jogaram o primeiro game. Aperture está em estado decadente depois que GLaDOS 'morreu' - quer dizer, depois que Chell acabou com ela. Sob cuidados dos sistemas redundantes a instituição acabou tomada pela natureza, com plantas e rochas surgindo em diversos locais do laboratório.

Um dos "amigos" de Chell é Wheatley, um robô com forma de olho que não para de falar. Ele tenta tirá-la das instalações, mas acaba reativando GLaDOS por engano. É importante notar que esses robôs são dotados de inteligência artificial muito avançada, possuindo até personalidade e senso de humor. No caso de sua nêmese, o caso é ainda mais intrigante, pois ela nutre sentimentos tipicamente humanos, como a raiva e vontade de se vingar.

Os diálogos são permeados com humor sarcástico, inteligente e cheio de referências ao primeiro game. É praticamente impossível não ficar com um sorriso no canto da boca a cada comentário feito pelas máquinas. O melhor é que o game tem um desenrolar genial e um desfecho simplesmente fantástico, com direito a uma música bacana, "Want You Gone" - mas não tão cativante quanto "Still Alive".

Seja no modo solo ou acompanhado de um amigo, "Portal 2" tem dezenas de quebra-cabeças inteligentes que brincam com teorias da física e faz o que antes era considerado impossível: levar o Steam para o PS3. Não é exagero dizer que este game mostra o quanto o primeiro "Portal", mesmo sendo genial, era apenas um protótipo. A cereja do bolo fica com a história, que tem um senso de humor apuradíssimo e um desfecho sensacional. Não importa qual sistema, este jogo não é apenas imperdível: "Portal 2" é indispensável.

Nota: 10 (Imperdível)

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