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Valiant Hearts: The Great War

Victor Ferreira

do Gamehall

07/07/2014 15h12

“Valiant Hearts: The Great War” não utiliza de conceitos de jogabilidade revolucionários, ou é particularmente desafiador, com um ou outro quebra-cabeças mais problemáticos. Mas, graças às cabeças do estúdio Ubisoft Montpellier - da série “Rayman” e “Beyond Good & Evil” - é um dos games mais envolventes, emotivos e até educativos dos últimos anos.

Com a Primeira Guerra Mundial como pano de fundo, “Valiant Hearts” explora a história de quatro personagens: o francês Emile, o americano Freddie, a belga Anna e o alemão Karl - que também é genro de Emile. Separados e unidos diversas vezes pelo conflito, a história leva cada um deles a enfrentar os horrores no fronte europeu, procurando sobreviver e - se possível - ajudar outros a seu redor. Muitas vezes, eles tem a ajuda de Walt, cão de resgate que pode ajudar a solucionar problemas.

Este, talvez, seja o diferencial mais acentuado do novo game da Ubisoft, que dá foco mínimo ao combate, explorando diversos dos problemas enfrentados não apenas pelos soldados no fronte, quanto por civis: ataques de gás cloro, bombardeios a cidades, invasão e ocupação de regiões por soldados inimigos, etc.

Cada personagem tem suas próprias habilidades e, em geral, um tom único: Emile sofre com os horrores constantes das trincheiras, tendo como principal equipamento uma pá para cavar a lama; Freddie é o que vê mais combate, e tem uma narrativa com padrão mais “heróico”, com direito a vilão e batalha final, e é o único que possui um alicate para cortar arame farpado; Anna tem como principal papel salvar a vida de soldados por meio de um minigame rítmico, além de sessões em que dirige um carro; E Karl se infiltra por trás de linhas inimigas em busca de sua esposa e filho.

O foco da jogabilidade poucas vezes envolve derrotar inimigos, preferindo usar quebra-cabeças para diversas atividades, desde desativar máquinas de gás cloro até trocar pneus. Alguns deles acabam enrolando o jogo - as partes com Karl são particularmente culpadas disto - mas ajudam a dar uma noção maior e levam o jogador a interagir com eventos e elementos importantes do período.

Luz na escuridão

Mesmo com a temática sombria, o estúdio de “Rayman Origins” consegue trazer alguma leveza a “Valiant Hearts”. O jogo, que roda no motor gráfico UbiArt - mesmo dos projetos anteriores da Ubisoft Montpellier - traz uma bela arte, que procura não esconder a sujeira, destruição e morte da Guerra, mas a deixa menos pesada e difícil de olhar.

Muito do que foi apresentado em “Rayman Origins” e “Legends” está aqui, recontextualizado para um ambiente menos debochado. Os diálogos entre os personagens são representados em balões com imagens apresentando objetivos ou algo de interesse, e até as sessões musicais de “Legends” ganham um sucessor na forma das perseguições envolvendo o táxi de Anna. A trilha sonora também é excelente, com acordes melancólicos e triunfais.

Ainda assim, a narrativa diverge para lugares deprimentes e violentos e, apesar de dar alguns tropeços em certos momentos, especialmente no início e com muito do que envolve Freddie, é capaz de mostrar os terríveis efeitos que a Primeira Guerra causou e que ambos os lados do conflito possuíam suas próprias figuras nobres ou sanguinárias e inconsequentes, tudo marcado por um final impactante.

ASSISTA AO TRAILER DE "VALIANT HEARTS"

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Lição de história

“Valiant Hearts” também ganha pontos por servir como um mecanismo educacional para seus jogadores. A cada fase, novos elementos são introduzidos e explicados em detalhes por meio de diários e um sumário, sejam batalhas importantes retratadas no jogo quanto evoluções tecnológicas, como a utilização de armas biológicas ou bombardeios por zeppelins.

Os colecionáveis também trazem informações extras sobre os objetos que eram utilizados no fronte ou na vida civil durante o início do século XX, desde vitrolas a panos umedecidos por urina, única proteção contra gás cloro antes da adoção de máscaras de gás.

A Ubisoft também está de parabéns por não só incluir legendas e menus em português, como também utilizar a equipe de localização para trazer informações sobre o que o governo e o povo brasileiro estavam fazendo durante o período, e quais foram suas contribuições para o conflito. Mesmo com nenhum personagem brasileiro, esta dedicação pelo público é louvável.

Ao fim, por mais que “Valiant Hearts: The Great War” tropece em alguns momentos, em especial por certos elementos da história que acabam parecendo forçados demais, a qualidade de seus acertos, refletida na visível paixão de seus desenvolvedores pelo projeto, o torna um dos destaques entre títulos alternativos do ano.

E, com indícios de uma sequência ao fim do jogo, pode se tornar uma das outras franquias de sucesso da Ubisoft.

Nota: 9 (Excelente)