Star Ocean 5

Rodrigo Lara

Do UOL, em São Paulo

O sentimento de conquista talvez seja uma das razões principais que fazem um jogador dedicar dezenas de horas a um jogo. Essa sensação pode vir de diversas formas, seja na forma de uma vitória contra um inimigo forte, pelo desbloqueio de novas habilidades que mudam a jogabilidade e tornam os personagens mais fortes ou por frustrar os planos de algum vilão terrível. 

Esses três itens citados - e diversos outros, façamos justiça - são algumas das características de um bom RPG japonês. "Star Ocean: Integrity and Faithlessness", contudo, rema contra essa tradição.

Lançado no início do ano para PlayStation 3 e PlayStation 4 no Japão, ele chegou ao Ocidente no final de junho com a missão de ser o novo capítulo de uma linhagem que teve início em 1996, com "Star Ocean" para Super Nintendo.

Genérico

Apesar de alguns elementos da série estarem presentes, como a jogabilidade mais voltada para a ação e a mistura entre fantasia medieval e espacial, o novo capítulo da franquia parece viver uma crise de identidade. Mapas lineares, design de personagens e atributos dos personagens aprimorados automaticamente a cada evolução são características tradicionais de RPGs japoneses que se fazem presentes no novo "Star Ocean". 

A semelhança com outros jogos do gênero, porém, ficam por aí. O personagem principal, Fidel Camuze, não transmite nenhum carisma - problema encontrado em praticamente todos os outros personagens que aparecem durante as cerca de 30 horas de jogo. A sensação que fica é que ele não passa de um guerreiro de cabelos azuis, desenhado com traços tipicamente japoneses e que poderia ser um coadjuvante sem importância em, sei lá, um anime.

A falha em criar uma história para os personagens que seja capaz de conectá-los inicialmente ao mundo em que vivem, e depois ao jogador, faz com que eles se tornem bastante genéricos. Praticamente não há nenhum período do game dedicado a contextualizar os jogadores.

Se a narrativa do jogo não ajuda nesse aspecto, o mesmo pode ser dito em relação à jogabilidade: em nenhum momento há o citado sentimento de conquista. A impressão que fica é que Fidel e seus companheiros são mais fortes do que deveriam desde o início e evoluí-los se reflete somente em melhorar seus atributos e ganhar novas habilidades, sem mecânicas inéditas que recompensem o jogador.

O mesmo vale para a história. Ela até tenta criar curiosidade no jogador, mas se mostra confusa a ponto de ficar em segundo (ou terceiro, ou quarto) plano. Tudo que um jogador não quer ao se aventurar por um RPG do tipo é se perguntar "Por que eu estou fazendo isso?". E essa é uma dúvida recorrente ao jogar "Star Ocean: Integrity and Faithlessness".

Praticamente não há cenas de corte mais trabalhadas e a impossibilidade de adiantar ou pular os diálogos - não há opção de português brasileiro tanto para as vozes quanto para as legendas - só torna a experiência mais maçante para quem, por exemplo, foi derrotado por um inimigo forte e precisa enfrentar novamente a batalha para prosseguir.

Lutas caóticas

Um sopro de alívio poderia vir das batalhas do game. Com inimigos visíveis no mapa e praticamente sem transição em relação ao modo de exploração, elas adotam um sistema que lembra o clássico "pedra-papel-tesoura". Ataques fracos interrompem ataques fortes que, por sua vez, são capazes de quebrar a defesa de um oponente. Já a defesa é capaz de parar ataques fracos. Essas são as três ações básicas possíveis nas batalhas de "Star Ocean: Integrity and Faithlessness".

Os golpes fracos e fortes podem ser encadeados, formando uma espécie de combo: a cada nova ação, um modificador garante mais força ao próximo ataque, até o limite de 200% de bônus. Além das ações básicas, segurar um dos botões de ataque faz com que o personagem controlado use uma habilidade. É possível configurar até quatro habilidades para cada integrante da equipe - duas de longa distância e duas quando se está perto dos inimigos.

Isso tudo poderia gerar um bom componente estratégico se o caos não fosse o elemento mais presente nas lutas. É praticamente impossível enfrentar os inimigos de maneira mais cadenciada, reagindo conforme cada ação do oponente. No "mundo real", as batalhas do título se resumem a um apertar frenético de botões e, no caso de adversários mais fortes, selecionar personagens com habilidades de cura e ficar nessa função enquanto a inteligência artificial do game comanda os responsáveis por atacar. E isso fica ainda mais crítico quando há até sete personagens em cada batalha. 

E, por falar em inteligência artificial, as ações dos personagens que não estão sendo controlados pelo jogador são determinadas pelos "Roles", perfis pré-estabelecidos que lembram os Gambits de "Final Fantasy XII". Se na teoria isso permitiria determinar de maneira mais aprofundada o que cada um da equipe faz, na prática é um sistema que não funciona muito bem, a ponto de seus companheiros ignorarem as ordens dadas e simplesmente se jogarem em direção ao perigo. 

Câmera maluca

Em termos de gráficos e som, "Star Ocean: Integrity and Faithlessness" pode não ser o game mais lindo do momento, mas não faz feio. Tecnicamente, o visual é bem trabalhado - ainda que falte transmitir vida em boa parte dos cenários - e as músicas são competentes. Há, porém, (mais um) problema: a câmera.

Aqueles que enjoam com facilidade poderão estranhar o balanço vertical da câmera enquanto o jogador, por exemplo, corre nos cenários. E, acredite, isso é algo que você fará bastante caso decida se aventurar pelo game. Diminuir a velocidade de rotação da câmera ajuda um pouco, mas não resolve o problema. A situação é mais crítica durante as batalhas, quando é comum ter a visão bloqueada por algum elemento do cenário ou outros personagens.

Fato é que, no decorrer de suas horas de jogo, "Star Ocean: Integrity and Faithlessness" passa a impressão que vai embalar e justificar a paciência investida pelo jogador. Isso não ocorre, infelizmente. E ao falhar na missão de instigar o jogador a prosseguir e recompensar os que se dedicam a fazer isso, não é exagero dizer que se trata de um título raso e uma experiência frustrante que nada lembra os primórdios da franquia - em especial, "Star Ocean: The Second Story", game de 1998 para PlayStation. 

Nota: 5 (Medíocre)

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