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Ganância e rebeldia: como a Marvel foi à falência nos anos 90

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Victor Ferreira

Do Gamehall, em São Paulo

07/07/2017 12h26

Pode ser difícil pensar, considerando a pilha de filmes multimilionários e zeitgeist que cercam a empresa pela última década (já viu o novo Homem-Aranha?), mas há pouco mais de 20 anos atrás a Marvel Comics estava à beira de um colapso.

No decorrer de sua história, a companhia havia encontrado uma série de dificuldades financeiras, seja nos anos 50 (quando ainda era conhecida como Atlas Comics) ou durante a década de 70 com a contração do mercado de quadrinhos.

Nada, porém, chegava perto da queda catastrófica da empresa, que depois de dominar o mercado no início da década, chegou a declarar falência na corte americana em 1996.

UOL Jogos separou abaixo alguns dos motivos pelos quais a Marvel quase deixou de existir - com algumas das sementes que levaram a companhia de volta à ascensão 

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    Ron Perelman

    Do panteão de vilões da Marvel, há um lugar especial para o empresário Ronald O. Perelman, que em poucos anos fez tanto estrago e causou tanta ruína a seus empregados que deixaria até o Doutor Destino (levemente) impressionado.

    Parte da diretoria da Revlon e conhecido como um "pirata corporativo", Perelman adquiriu a editora em 1989, acreditando que poderia ficar ainda mais rico ao espremer seus personagens até a última gota e considerando-a uma "mini-Disney".

    (Sim: eu, você e todos que leram este artigo tiveram a mesma reação).

    Perelman passou os próximos anos gastando rios de dinheiro ao comprar companhias como a fabricante de briquedos Toybiz e a Malibu Comics. Ele também aproveitou a bolha especulativa do mercado de quadrinhos para lançar as revistas nos formatos mais bizarros e "especiais" para chamar a atenção do público.

    No começo a estratégia deu certo, e HQs como "Homem-Aranha", "X-Men" e "X-Force" vendiam literalmente milhões de cópias, algo impensável mesmo alguns anos antes.

    E foi aí que a bolha estourou.

    Em questão de meses, os lucros despencaram. Qualquer tentativa dos executivos de Perelman para tentar estancar a sangria - incluindo dividir o time em 5 editorias principais para cada grande selo - foi um fracasso, e quem pagou o preço foram os empregados e equipe criativa, com centenas de pessoas sendo demitidas.

    Foi Perelman que decidiu declarar falência em 1996, como forma de tomar controle de outros acionistas. No fim das contas, porém, ele acabou perdendo totalmente controle da empresa para Ike Perlmutter e Avi Arad, executivos da Toybiz, que acreditavam que a melhor forma de pagar as dívidas com os bancos era levar seus heróis para o cinema.

    Eles estavam certos.

    Perelman, por sua vez, pode não ter faturado com o renascimento da Marvel, mas depois de deixar a empresa com US$ 300 milhões a mais no bolso e ter atualmente US$ 12,2 bilhões em seu nome, o empresário não tem muito do que reclamar.

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    Êxodo de artistas e a Image Comics

    O final dos anos 80 e início dos anos 90 trouxe uma nova geração de artistas: Todd McFarlane, Rob Liefeld, Jim Lee, Erik Larsen, entre outros.

    Embora seus legados sejam... controversos, para dizer o mínimo, é inegável que eles mudaram radicalmente a indústria, não só pelo estilo artístico, mas também por sua relação com a cultura corporativa da Marvel e da DC.

    Apesar de ter um controle criativo significativamente maior do que desenhistas no passado, McFarlane e outros sabiam muito bem todo o drama envolvendo Jack Kirby e Steve Ditko, que foram responsáveis pela criação dos personagens mais icônicos da Marvel, mas que não tiveram um reconhecimento digno. Por isso, em 1992 estes artistas debandaram da Casa das Ideias e formaram sua própria editora independente, a Image Comics, berço de revistas como "Spawn" e "Youngblood".

    Com a saída de suas figuras mais populares, a Marvel sofreu não só financeiramente como a percepção do público se alterou significativamente, passando a ser considerada uma entidade tão corporativa e monolítica quanto a DC Comics aos olhos dos fãs.

    A Image, por sua vez, representava tudo o que havia de errado nos quadrinhos dos anos 90: anti-heróis durões genéricos, mulheres (ainda mais) objetificadas, violência descontrolada - basicamente a visão ideal de maturidade para quem não tinha maturidade nenhuma.

    Ironicamente, após uma reestruturação, atualmente a editora é considerada um dos bastiões do mercado independente, responsável por algumas das obras mais aclamadas dos últimos anos, como "The Walking Dead", "Saga" e "The Wicked + The Divine".

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    A bolha do mercado de quadrinhos

    Em meados dos anos 80, o mercado especulativo de quadrinhos começou a crescer significativamente, graças principalmente ao valor de edições raras de revistas clássicas ou com tiragem limitada, como a "Action Comics #1" (primeira aparição do Superman) ou "Amazing Fantasy #15" (estreia do Homem-Aranha).

    Vendo a possibilidade de lucrar muito com este mercado, a Marvel (especialmente sob o comando de Perelman) e as outras editoras logo começaram a lançar edição especial atrás de edição especial de revistas com as variações mais bizarras e inúteis - capas douradas, platinadas, espelhadas, 3D, etc.

    O plano funcionou por algum tempo, com revistas como "Homem-Aranha #1" de McFarlane, "X-Force #1" de Liefeld e "X-Men" de Jim Lee vendendo milhões de cópias.

    Só havia um problema: para que estas HQs tivessem algum valor no futuro, elas precisavam ser raras. E quando os colecionadores começaram a perceber que as várias edições supostamente valiosas que compraram não lucro algum (pelo contrário!), a bolha estourou.

    Em poucos anos, o número de vendas caiu 70%, e a contração do mercado levou várias editoras independentes à fechar as portas. A DC, que também se aproveitou do setor especulativo, conseguiu sobreviver por fazer parte do conglomerado Time Warner. A Marvel, por outro lado, não tinha este tipo de proteção na época, o que veio a levá-la à falência pouco tempo depois.

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    Crossovers! Crossovers!! CROSSOVERS!!!

    Em 1984, a Marvel lançou "Guerras Secretas", uma HQ que reunia os principais heróis e vilões da editora em um planeta inóspito para lutar sem grande motivo aparente, e que tinha como grande objetivo vender brinquedos.

    Naturalmente, a história foi um sucesso estrondoso (o que explica porque 2 de cada 5 eventos especiais da Marvel tem o nome de "Guerras Secretas" ou alguma variação do tipo), e logo a editora começou a explorar histórias do tipo.

    "Guerras Secretas II", "Massacre", "A Era de Apocalipse" para os X-Men, "A Saga do Clone" do Homem-Aranha, "Heróis Renascem", todas estas histórias dominaram as HQs da Marvel, e para entender cada arco e ponto narrativo era necessário comprar todas elas.

    Logo, isso começou a causar fadiga nos leitores, que começaram a deixar várias destas revistas de lado por desinteresse ou simplesmente por não ter dinheiro suficiente para comprá-las. Apenas quando Joe Quesada assumiu a posição de editor-chefe isso deu uma acalmada.

    ... Temporariamente, de qualquer forma.

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    As HQs simplesmente não eram muito boas

    Isso é mais um ponto retrospectivo do que qualquer coisa, mas algo importante de se notar sobre esta era sombria da época dos quadrinhos: É difícil recomendar muita coisa produzida pela Marvel.

    Não é como se a DC também não tivesse publicado muito lixo na época, mas ainda assim é possível separar vários trabalhos excelentes e memoráveis, muito em parte graças ao selo Vertigo: "Sandman" de Neil Gaiman; "Homem-Animal" de Grant Morrison; "Starman" de James Robinson; "Hellblazer" de Garth Ennis; a Liga da Justiça Internacional de Keith Giffen e J.M. DeMatteis; "Flash" de Mark Waid - estas são só algumas das HQs que ainda são consideradas clássicas do gênero, e ainda recomendadas até hoje por fãs e mídia entusiasta.

    O único trabalho realmente aclamado da Marvel neste período e que sobreviveu ao teste do tempo foi "Marvels", de Kurt Busiek e Alex Ross, que é essencialmente uma carta de amor à Era de Ouro e Era de Prata dos quadrinhos, retratando a aparição de heróis dos anos 30 e 40 como Namor e o Capitão América, até a morte da namorada de Gwen Stacy, tudo pelos olhos de um homem comum.

    De resto, há algumas histórias interessantes aqui e ali - A Era de Apocalipse ainda é relativamente popular entre fãs de X-Men, e a morte da Tia May em "Amazing Spider-Man #400" é provavelmente uma das melhores HQs do Homem-Aranha, mesmo sendo parte da odiada Saga do Clone (e com a velhinha sendo revivida pouco depois) - mas infelizmente há muito pouco que se salve desta época tenebrosa da Casa das Ideias.

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