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Com "Medal of Honor", Steven Spielberg definiu os jogos de Segunda Guerra

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Imagem: Reprodução

Pablo Raphael

Do UOL, em São Paulo

11/12/2017 04h00

Diretor de "E.T.", Tubarão" e "Jurassic Park", Steven Spielberg adora jogar videogames. Nos anos 1990, quando não estava dirigindo filmes, o cineasta estava pilotando aviões em "Flight Simulator", enfrentando robôs em "MechWarrior" ou dirigindo seu próprio estúdio de jogos, a DreamWorks Interactive.

Foi nesse estúdio que, em 1997, Spielberg propos a ideia de um jogo de tiro ambientado na Segunda Guerra Mundial. Era uma das ambientações favoritas do diretor, que, na época, trabalhava na pós-produção de "O Resgate do Soldado Ryan".

Segundo Lynn Henson, um dos desenvolvedores da DWI, um dia Spielberg lhes disse o que gostaria de jogar: um jogo de ação de época, que ele chamou de "Medal of Honor", nome da mais alta medalha militar dos EUA. Até então, a DreamWork fizera alguns adventures e jogos de "Jurassic Park".

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Em 1997, Spielberg trabalhava em "O Resgate do Soldado Ryan" e queria produzir um game que passasse uma experiência de guerra parecida com a vista no cinema. Imagem: Reprodução

Para os desenvolvedores de games, a Segunda Guerra Mundial era um cenário morto, pois os jogadores estavam mais interessados em ambientações fantásticas e futuristas - e não em campos de batalha realistas. Mas Spielberg estava empolgado com a ambientação de "Resgate do Soldado Ryan" e tinha jogado "GoldenEye 007" no Nintendo 64. Foi assim que o cineasta decidiu que "Medal of Honor" seria um jogo de tiro em primeira pessoa.

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Havia um problema: a DWI fazia jogos para PlayStation, console onde o gênero de tiro não se encaixava bem. O controle do PS1 ainda não tinha alavancas analógicas, o que dificultava a movimentação da mira, por exemplo. Outras limitações técnicas afetariam a produção, mas para a DWI, a falta de jogos de tiro no PS1 era uma oportunidade e tanto.

Por fim, Spielberg queria que "Medal of Honor" fosse realista e "honra-se os soldados americanos da Segunda Guerra Mundial". Com esses objetivos em mente, a DreanWorks Interactive criou um jogo de tiro que era bem diferente de um "Wolfenstein", onde o jogador andava e atirava em nazistas em um labirinto.

Para capturar o clima de Segunda Guerra Mundial, Spielberg envolveu o roteirista e produtor Peter Hirshmann, aficcionado pelo tema, e o consultor militar Dale Dye, um capitão aposentado do exército dos EUA, no desenvolvimento.

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Lançado em 1999, "Medal of Honor" conquistou fãs pela jogabilidade e pela ambientação, mas não tinha uma trama própria. O jogo aproveitava o cenário de Segunda Guerra Mundial para mandar você em missões em vários campos de batalha diferentes. Imagem: Reprodução

O formato de missões em três partes adotado em "Medal of Honor" veio das instruções do capitão Dye: cada missão se divide em "invadir um lugar, executar a tarefa e cair fora". O capitão também é dono da voz que narra os eventos da guerra no início do jogo.

Jogo de tiro para PlayStation

Produzir o jogo imaginado por Spielberg no PlayStation foi difícil: enquanto "GoldenEye 007", da Rare, tinha 4 MB de RAM para trabalhar no Nintendo 64, "Medal of Honor" contava com a metade disso no console da Sony. O time de "Medal of Honor" teve que ser criativo para contornar problemas com espaço para texturas, a paleta de cores limitada e a ausência de correção de perspectiva, entre outros.

Para simplificar, todas as missões acontecem a noite ou dentro de estruturas. Essa foi uma decisão para não desperdiçar memória com nuvens e outros elementos no céu. Da mesma forma, apenas 4 personagens são visíveis na tela ao mesmo tempo, durante todo o jogo, com pontos de surgimento específicos definidos no mapa. Técnicas usadas até hoje em jogos como "Call of Duty" nasceram em "Medal of Honor" para passar a impressão de que você está sempre enfrentando muitos inimigos.

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As missões de "Medal of Honor" são todas noturnas: foi uma das saídas encontradas pela DWI para superar as limitações técnicas do PS1. Imagem: Reprodução

O PS1 tinha uma baixa contagem de polígonos e por isso os bonecos são simples, com mãos enormes e sem dedos. Por outro lado, os inimigos se comportam de maneiras variadas, o que dá uma impressão mais autêntica de guerra do que se tivessem modelos super-detalhados. "Medal of Honor" apresenta reações diferentes conforme a parte do corpo que você acerta, capacetes voando ao acertar um 'headshot'. Um inimigo que não morre vai buscar cobertura, tentar tocar um alarme, jogar uma granada no jogador ou se unir aos companheiros para se defender.

Para animar os soldados, a DreamWorks usou referências em vídeo, com os programadores do jogo fazendo as várias ações vistas na tela. Spielberg ficou bastante empolgado com esse nível de detalhes e o time decidiu investir nisso, criando 450 animações diferentes para os soldados. Uma das animações mais lembradas, quando os pastores alemães pegam as granadas, foi sugestão do próprio cineasta. 

A trilha sonora de "Medal of Honor" é toda orquestrada e foi composta por Michael Giacchino, ganhador do Oscar por "Up: Altas Aventuras" e que ainda atua como compositor em jogos da série "Call of Duty" e em filmes de sucesso, como o recente "Star Wars: Rogue One".

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Ao invés de cenas pré-renderizadas, a DreamWorks optou por imagens estáticas nas sequências antes das missões e nas telas de 'loading' que rolam depois que você morre. Imagem: Reprodução

Ótima jogabilidade, ambientação realista, trilha orquestrada: o que faltou no primeiro "Medal of Honor" foi uma boa história. A série de missões que compõem o game não apresenta uma narrativa memorável. A DWI precisava escolher entre história e 'gameplay', e o PS1 mal tinha memória para rodar o jogo todo em 30 quadros de animação por segundo.

De certa forma, o jogo se beneficiou pela ambientação histórica, com os eventos da guerra real conectando as missões. Com isso, o time de "Medal of Honor" aproveitou a liberdade para situar as fases em pontos variados da Europa, sem dar maiores explicações para o jogador.

Tiros em Columbine

Faltando pouco para o lançamento de "Medal of Honor", os adolescentes Eric Harris e Dylan Klebold abriram fogo contra outros jovens em uma escola na cidade norte-americana de Columbine. O massacre de Columbine foi registrado pelas câmeras de segurança do colégio e chocou o mundo.

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O massacre de Columbine levantou discussões sobre venda e porte de armas, mas também sobre a relação de games e a violência entre os jovens. Imagem: Reprodução

Games de tiro foram listados entre as influências por trás do massacre e isso afetou a produção de "Medal of Honor". O jogo originalmente era muito sangrento. Em entrevista à revista Edge, o filho de Steven Spielberg, Max, disse que algumas das animações ficariam melhor em um filme de terror do que no game. Para suavizar o conteúdo e garantir que o jogo fosse voltado para adolescentes, a DWI removeu todo o sangue de "Medal of Honor".

Febre de guerra

Lançado pela Electronic Arts em 1999, "Medal of Honor" foi um sucesso comercial e de crítica. As avaliações da época comparavam o jogo de Segunda Guerra do PS1 com "GoldenEye", do Nintendo 64. Apesar do sucesso, a DreamWorks Interactive foi vendida por Spielberg para a EA. Segundo o diretor, foi "a decisão mais esperta e mais idiota" que ele já tomou.

O diretor reconhece que o estúdio poderia continuar operando muito bem com o sucesso de "Medal of Honor", mas acredita que o investimento que a EA fez ao longo dos anos seguintes justificou a venda. A franquia de tiro rendeu 13 games. A relação do cineasta com o time que produziu "Medal of Honor" era muito próxima, mesmo após a venda do estúdio: Steven Spielberg foi até a DWI e entregou pessoalmente os cheques com os bônus para cada membro da equipe.

O sucesso de "Medal of Honor" motivou a indústria dos games a lançar jogos de tiro ambientados na Segunda Guerra Mundial. O maior expoente foi "Call of Duty", da Activision, série que desbancou o jogo da EA e se tornou o representante supremo do gênero, mas outras produções incluem os primeiros "Battlefield", "Day of Defeat" e "Red Orchestra", para ficar nas séries mais conhecidas.

O gênero foi sendo deixado de lado após o lançamento de "Call of Duty 4: Modern Warfare". Os dois últimos "Medal of Honor", por exemplo, seguiram para uma ambientação moderna, abordando conflitos contra organizações terroristas no Oriente Médio. As vendas ficaram bem abaixo do esperado e a franquia acabou sendo descontinuada pela EA.

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O último jogo da série, "Medal of Honor: Warfighter" foi lançado em 2012, quando a DWI se chamava Danger Close Games. O game não vendeu bem e a EA colocou a série de tiro na geladeira. Imagem: Divulgação

Atualmente, o estúdio atende pelo nome de DICE Los Angeles e produz conteúdo adicional para a série "Battlefield" - o mais recente, "BF1" é ambientado na Primeira Guerra Mundial, enquanto o rival "Call of Duty" voltou para a Segunda Guerra.

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