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BGS: Entre assédio e confusão, 'youtubers' são atração à parte da feira

Pablo Raphael

Do UOL, em São Paulo

13/10/2014 12h05

BRKsEdu, Rato Borrachudo, Rezende Evil, Venon, Monark… se você nunca ouviu algum desses nomes, pergunte ao seu filho ou irmão mais novo. Esses são alguns dos 'youtubers' mais famosos do Brasil, jovens que produzem vídeos jogando seus games favoritos e que conquistaram milhares de fãs nos últimos anos.

Esses jovens vêm ao Brasil Game Show para experimentar as novidades do mundo dos jogos, mas também para serem vistos pelos fãs. Não são poucas as crianças que visitam o evento em São Paulo apenas pela oportunidade de chegar perto dos ídolos da internet.

BRKsEdu (29), é um dos mais populares entre os 'youtubers'. Ele veio do Canadá, com as despesas pagas pela produtora Ubisoft, para participar do evento. Durante todos os dias da BGS, bastava Edu dar alguns passos pelo ExpoCenter Norte para ser cercado por fãs.

“Em eventos como a BGS é complicado conseguir andar pela feira e jogar os games”, contou BRKsEdu em entrevista ao UOL Jogos. “Para jogar, eu peço ajuda das produtoras. A Ubisoft me arrumou um espaço para eu poder entrar ali no estande e jogar ‘Far Cry 4’, por exemplo”.

Edu lida com tranquilidade com o assédio dos fãs, mas admitiu ficar preocupado com a segurança. “Eu gosto muito de interagir com os fãs, mas sempre me preocupo com a segurança das pessoas, tanto com a minha integridade física quanto a dos fãs. Já pensou se acontece alguma coisa com uma criança pequena, ali no meio da multidão?”

Muca Muriçoca, que participou do evento promovendo o jogo “Tanki Online”, é outro que não conseguiu jogar nada na BGS. “Eu chego aqui e não consigo andar, não consigo jogar nada, nem sair do estande”, disse o 'youtuber' de 34 anos ao UOL Jogos.

“É o preço da minha escolha, eu busquei isso e é bacana”, disse Muriçoca. “Eu acho que tiro mais de 500 fotos com fãs por dia na BGS”.

Assédio e confusão

Onde quer que os 'youtubers' estivessem na feira, logo se formava uma multidão ao redor, tentando conseguir um autógrafo ou tirar uma foto com os ídolos. Estandes como o da Activision, Warner e Ubisoft organizavam sessões de autógrafos e bate-papo com alguns dos mais conhecidos, mas outros se concentravam na “sala Web”, uma área perto da saída da BGS.

  • Divulgação

    Um dos mais famosos 'youtubers' do Brasil, o enigmático Zangado (27), não veio à BGS em 2014. “O evento não oferece a segurança necessária. Ano passado eu dei mais de mil autógrafos no estande do UOL BoaCompra, que me ofereceu todo suporte - uma sala fechada para que meus inscritos entrassem, tirassem fotos comigo, e um segurança na porta”.

  • “Os fãs são os responsáveis pelo sucesso do meu canal, tenho muito respeito por eles”, disse Zangado, sempre atrás de uma máscara de Guy Fawkes. “Tento construir um relacionamento com eles no dia-a-dia, respondendo suas mensagens, na medida de possível, e dando o máximo de atenção que consigo”.

Nos dois primeiros dias de feira, a porta da infame sala Web reunia dezenas de fãs adolescentes, em cenas de tietagem dignas de um Justin Bieber ou uma Taylor Swift. Mas o público estava lá para ver os youtubers. Mesmo aqueles com poucos seguidores nos canais tinham momentos de estrelato.

A sala Web foi fechada no penúltimo dia de feira. Segundo a organização, foi preciso fechar a sala “para manutenção”, mas há relatos de brigas, agressões físicas e vandalismo no local. Procurada por UOL Jogos, a assessoria de imprensa da BGS disse que “foi necessário mudar a sala de lugar, para acomodar melhor os fãs que estavam lá para ver os ídolos da web”.

De forma geral, os 'youtubers' concordam que há uma falta de apoio da BGS. Além da sala, a feira fornece a credencial para que eles participem do evento.  Alguns deles acreditam ser o principal motivo para o público vir ao evento em São Paulo.

“Das 60 mil pessoas que estão aqui, 55 mil vieram ver um 'youtuber' famoso, vão ficar na porta da sala esperando o cara entrar ou sair”, exagera Luiz, do canal Bendito Vício Games.

“No ano passado, estava bagunçado mas estava movimentado. Esse ano, está maior ainda, está explosivo”, disse Ricardo Araújo, do canal CapsLock. “A gente vê o assédio, a gente vê criança chorando querendo falar com o 'youtuber' favorito dela, filas enormes não para ver os jogos, mas para ver o 'youtuber', o famoso, a pessoa que ela conhece”.

“A gente não pode ficar muito tempo parado no mesmo lugar, porque pode causar um problema de segurança para as crianças pequenas que estão aqui”, disse Ricardo.

“Muita gente comprou o ingresso para vim ver o pessoal”, disse o popular Rato Borrachudo ao UOL Jogos.  “Se a BGS quer fazer uma feira para promover os games, não deveria colocar junto com os 'youtubers'”.

“Mas na minha opinião pessoal, há ganância [da BGS]. Se quer vender entrada, bota 'youtuber', porque aí vai  vender. A galera quer vir ao evento, eles perturbam os pais para poder vir aqui ver a gente”.

“É uma sacanagem o evento botar na gente a responsabilidade com o público. Não somos nós que organizamos o evento. Eu não sei o que aconteceu com a feira esse ano, já que no ano passado, a gente se divertiu, brincou, atendeu todo mundo”.

Para Rato, é preciso que a BGS garanta a segurança de todos para evitar tumultos. “Se quer fazer algo com os 'youtubers', bota um aquário no meio do evento e umas passarelas por cima, olha o espaço que tem aqui!”, disse, apontando para a ampla estrutura do ExpoCenter Norte.

“Se quer botar a gente para andar no evento, bota segurança para andar com a gente. A gente não tem como levar o nosso segurança, a gente é youtuber, não é global”.

“Em eventos lá fora, como a PAX, você tem essa estrutura gigante, mas é tudo bem organizado”, apontou Ricardo, do canal CapsLock.

“Fiquei sabendo de amigos que não conseguiam andar, que rolou muito tumulto e eles foram convidados a se retirar, mas não sei se faltou segurança”, disse Muca Muriçoca sobre os problemas. “Não sei se é uma questão da BGS ou se o mundo gamer, o mundo nerd, esse mundo geek está preparado para o que está acontecendo, para essa cena que está crescendo muito”.

“No cenário brasileiro, a coisa está tomando uma proporção gigantesca e quem está de fora não entende o que está rolando. Num evento desse tamanho, o pessoal fica de cara quando vê um cara andando e uma multidão atrás dele”, explica Muriçoca.

Apelando para o anonimato

Rato Borrachudo prefere não revelar sua identidade. Os fãs não conhecem o rosto por baixo da máscara de roedor e isso acaba sendo uma vantagem quando o ídolo quer andar incógnito na feira. “Assim que eu tiro a máscara e troco a camisa, eu consigo circular a feira inteira”, explica o jovem que divide o tempo entre o canal e um emprego convencional na área de Tecnologia da Informação.

  • Reprodução/Instagram

    Para Rato Borrachudo, “Se a BGS quer fazer uma feira para promover os games, não deveria colocar junto com os 'youtubers'”

“Eu entro na fila como todo mundo, já que aí eu não posso me identificar, mas consigo aproveitar a feira e testar os jogos”, disse Rato. “Consegui jogar ‘DriveClub’, ‘The Order’, ‘Street Fighter’, ‘Resident Evil Revelations 2’, vários jogos”.

“Um monte de amigos meus nem conseguiu sair do estande”, contou Rato, apontando as vantagens do anonimato.

“Tem uma galera que está vindo de máscara para conseguir fazer as coisas. O que você mais vê aqui é gente fantasiada, fazendo cosplay, então é bem divertido. Se não me engano, o Monark veio com uma máscara de Creeper (de “Minecraft”), fez um monte de coisa e foi embora”, revela o 'youtuber'.

Mas afinal, o que faz um YouTuber?

Os 'youtubers' são jovens que produzem e compartilham vídeos onde jogam e comentam games. Entre os que fazem isso a mais tempo, é consenso que não entraram na brincadeira buscando a fama.

  • Divulgação

    "Enquanto eu oferecer conteúdo interessante, com qualidade, o canal será um meio de vida sustentável", acredita BRKsEdu

"Nunca imaginei que o o canal chegaria onde chegou", conta BRKsEdu. "Se tivesse pensado nisso, teria escolhido um nome melhor". A sigla "BRKs" é do clã de "Call of Duty" do qual faz parte, o "Brazukas".

"Eu gosto muito de 'Call of Duty' e assistia muitos vídeos de 'gameplay' em canais estrangeiros para me divertir e aprender novas estratégias. Comecei a fazer os meus vídeos, só para mostrar partidas, sem comentários nem nada. Era uma coisa para me distrair depois de passar o dia no trabalho, no setor financeiro de uma exportadora", lembra Edu.

"Comecei há 5 anos, mal existiam 10 canais de games no YouTube e todos faziam por puro hobby", conta Zangado, ausente na BGS em 2014. "O sucesso crescente (hoje estou com quase 1,7 milhão de inscritos), fez com que eu passasse a dar mais atenção ao conteúdo, criasse novas atrações, como entrevistas com desenvolvedores internacionais". Zangado já conversou com produtores como Ed Boon, de "Mortal Kombat", e Alistair Hope, do recente "Alien: Isolation".

Alguns 'youtubers', como Zangado e Rato Borrachudo, dividem o tempo entre o canal na internet e uma carreira tradicional. "Hoje eu me divido entre o canal e minha profissão na área de TI", disse Rato. Por isso, ambos preferem preservar a verdadeira identidade.

Outros, como BrKsEdu e Muca Muriçoca, encaram o canal como profissão. Muca participa de vários eventos do ano trabalhando como promotor de jogos, por exemplo.

"Eu já fiz parte de 'networks', fui praticamente a cara do Machinima no Brasil e hoje trabalho com uma agência", explicou Edu. "Acho que o YouTube é como  uma bola de neve, está sempre girando e crescendo e você precisa manter uma produção de qualidade, se reinventar para continuar atraindo o interesse do público".

"Enquanto eu oferecer conteúdo interessante, com qualidade, o canal será um meio de vida sustentável", disse Edu, que não deixa de fazer planos para o futuro: "Se um dia isso não der mais certo, eu pretendo continuar trabalhando com a agência em que estou, na comunicação em redes sociais e lidando com o público jovem, em mídias sociais ou na formação de 'networks', com quem precisar aprender a falar com esse público".