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Criar games é alternativa para quem sonha em mudar de profissão

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Em busca de uma carreira nos games, profissionais voltam para a sala de aula Imagem: Divulgação

Pablo Raphael

Do UOL, em São Paulo

10/09/2015 10h00

Trabalhar com desenvolvimento de jogos no Brasil deixou de ser um sonho impossível faz tempo: o país conta com 40 cursos superiores e diversos cursos livres voltados para a produção de games. Mas não são só estudantes buscam começar na área: não são poucos os casos de profissionais que resolvem aprender a desenvolver jogos para mudar de carreira.

É o caso de Danilo Silva, de 35 anos, analista de sistemas há dez anos. Apaixonado por realidade virtual, Danilo decidiu que quer montar seu próprio estúdio e desenvolver jogos que usem essa tecnologia. Sem experiência prévia com produção de games, o analista optou por fazer um curso livre de Unreal Engine, motor gráfico que oferece uma interface facilitada ao usuário ao mesmo tempo que permite desenvolver jogos complexos.

A facilidade de programar nesta plataforma atraiu a atenção de Danilo. "A Unreal quebrou o paradigma da complexidade, de separar o artista da programação. Como não precisa meter a mão em código, a galera que não tem familiaridade com programação consegue fazer muita coisa".

Divulgação/Axis
Sem descanso: Danilo e Teo fazem o curso de Unreal Engine da Axis aos sábados Imagem: Divulgação/Axis

Não que fazer um curso livre seja fácil: o analista reconhece que é preciso dedicação e disciplina para aprender a programar seus próprios games. "Eu chego do trabalho e passo horas estudando, assistindo vídeos de tutoriais e praticando o que vejo na sala de aula".

Segundo Danilo, quem quer entrar na área precisa estudar muito e estar preparado para investir tanto tempo quanto dinheiro. "Eu tenho um computador bom em casa, só assim para dar conta de renderizar todos os efeitos de iluminação que programo na Unreal".

Ao menos nessa fase de aprendizado, quem não tem um computador tão robusto pode se virar com o equipamento disponível nos cursos. É o que faz o músico Teo Oliver. "Eu tenho só um Mac em casa, então venho para a escola nos dias em que não tenho aula para praticar e trabalhar no desenvolvimento do nosso projeto".

Projeto? Sim, Teo e Danilo estudam na mesma escola, a Axis, em São Paulo. Ambos estudam desenvolvimento de jogos em Unreal Engine (a escola é parceira acadêmica da Epic Games no Brasil) e junto com colegas de outras disciplinas devem produzir o protótipo de um game. O projeto da turma é um jogo de terror em primeira pessoa, inspirado pelo cultuado "P.T.", do PlayStation 4.

Acervo pessoal
Teo é músico com formação em pós-produção de áudio para cinema. "Eu queria trabalhar com áudio para games, mas sempre ficava meio perdido. Entrei no curso para aprender como funcionam os jogos e trabalhar pra valer na área". Imagem: Acervo pessoal

Assim como Teo, o designer gráfico Danilo Pinheiro, de 18 anos, chegou ao curso apenas com a vontade de aprender e montar seu próprio estúdio, mas sem experiência prévia com programação de jogos. "Sempre tive esse sonho, mas faltou tempo para sentar e estudar, só aqui eu coloquei a mão na massa".

"No primeiro contato, você pensa: vai ser muita treta! Mas com a ajuda do professor, você vê que dá para fazer tudo, coisas simples permitem fazer coisas complexas. É só usar a criatividade", explica o designer, que planeja abrir um estúdio junto com o irmão.

"Ele é artista e eu quero ir mais para a programação, então quando a gente for decidir as coisas, cada um entendera de uma parte do negócio, vamos nos completar".

Sonho possível?

Um dos instrutores do trio na Axis é Daniel Monastero, que além de ensinar modelagem 3D é co-fundador do estúdio Garage 227. "Eu sou formado em Direito, mas quando eu decidi que queria trabalhar com games, entendi que não é só um curso livre ou uma faculdade que vão fazer a diferença. É preciso se dedicar naquilo, estudar muito, investir em livros e tutoriais".

"Eu decidi fazer cursos na área e fiz um plano de 5 anos para mudar de carreira: se não conseguisse, ao menos teria aprendido mais sobre algo pelo que sempre fui apaixonado. Mas rolou, três anos depois eu tinha meu próprio estúdio".

Acervo pessoal
"Eu terminei o segundo grau em 1997, naquela época fazer games não era uma opção aqui no Brasil. Profissão era médico, advogado, engenheiro. Não existia isso de ir trabalhar no exterior, no máximo você ia para a Disney. Era uma realidade bem diferente do que você tem hoje", conta Daniel. Imagem: Acervo pessoal

Daniel comenta que trabalhar com games não se limita ao desenvolvimento. "A advocacia me ajuda muito no estúdio, eu me envolvo mais com a administração, a parte de negócios da empresa. Sempre tivemos lucro, mas para isso precisamos pegar serviços terceirizados o tempo todo, trabalhar no jogo dos outros". O Garage 277 trabalha atualmente em um jogo próprio, "Shiny", para Xbox One.

"A transição de carreira envolve estudar muito, se dedicar, mas também é preciso que a sua família entenda o que você está fazendo", explica Daniel. "Tudo aquilo que você estudou e viveu antes, seja medicina, direito, química ou jornalismo, vai te dar a maturidade e a base para o futuro. Você não pode abandonar o conhecimento que você já tem".

Para Daniel, a indústria de games nacional precisa de profissionais de outras áreas, não só de desenvolvedores. "Se você é contador, advogado ou trabalha com marketing, porque não fazer o que sabe em empresas de videogame? Precisamos de relações públicas, de pessoas que façam planejamento tributário. Dá para trabalhar com games em qualquer área de conhecimento".

"A indústria de games emprega centenas de milhares de pessoas, não só artistas e designers. Isso é algo que o mercado brasileiro só está começando a entender agora". Para ele, quem estuda desenvolvimento de jogos não necessariamente vai seguir a carreira como artista ou game designer. "Para trabalhar com games, é preciso entender o produto, independente da área de atuação".

Qualquer um pode aprender a programar games?

Para ingressar num curso livre de games, não é preciso conhecimento prévio de programação. Para Fred Saddi-Naccache, diretor da Axis, em São Paulo, "um curso de alto nível vai certamente ensinar programação, a ferramenta de escolha (a engine – no caso da Axis, o Unreal) e os conceitos de criação, conceituação do projeto (jogo), arte e design, narrativa, personagens e cenários, 'levels' e 'playability/gameplay'".

O diretor acredita que há uma grande lacuna a preencher no mercado brasileiro, que está entre os cinco maiores consumidores de games, mas não aparece sequer no top 10 dos países produtores de jogos.

Divulgação/Axis
"É claro que, assim como em muitas áreas, falta incentivo do governo e uma associação ou até sindicato que crie um conjunto de regras e proteja a classe e a profissão, mas não é motivo para deixar de criar estúdios, start-ups e eventos, plataformas de lançamento de jogos ou desenvolver um projeto e usar ferramentas de 'crowdfunding' para obter financiamento", aponta o diretor. Imagem: Divulgação/Axis

Para Fred, o desenvolvimento de jogos é um segmento fértil para a criatividade, tanto artística quanto para os negócios: "Há muitas parcerias a ser exploradas, mercados a ser descobertos, plataformas a ser inventadas, eventos a ser criados e produzidos".

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