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"Conheci um cara jogando online e ele me perseguiu por sete anos"

Daniel Neri/Arte UOL
Imagem: Daniel Neri/Arte UOL

Ana Mhizar*

Depoimento ao UOL

03/05/2016 11h16

Fui perseguida por um cara durante sete anos.

Ele namorava uma colega do colégio e descobriu que eu gostava de jogos. Era a época áurea do “Ragnarök Online” e começamos a conversar pela internet. Sem paquera, só conversa de jogo mesmo, até porque eu sempre fui “quietinha”.

Ele achou o máximo “eu ser bonita e jogar” e passou a insistir para sair comigo. Só que eu tinha 14 anos e ele 23. Nessa idade eu queria ser física; não queria saber dos meninos.

Por ele ser mais velho, fiquei com medo. E ainda achava desrespeitoso, já que ele tinha namorada. Negava as investidas e, discretamente, passei a bloqueá-lo nos jogos e redes sociais da época.

Foi quando ele começou a me perseguir pessoalmente: tirava fotos minhas na saída do colégio, do curso de inglês e postava num flog.

Era uma época complicada da minha vida: minha família faliu, meu pai faleceu logo em seguida e minha irmã teve câncer.

Tive que trocar a escola particular pela pública e comecei a trabalhar.

Como ele não sabia onde eu morava, mas só os lugares que eu frequentava, que eram comuns à sua namorada, ficou mais transtornado ainda: criou mil fakes e chegou a ameaçar e agredir duas colegas do antigo colégio para descobrir onde eu estava. Só que elas também não sabiam.

Ele se fez passar por criança e ofereceu CDs de jogo, anime e cartinhas para a minha irmã, que é caçula e continuou no colégio particular graças à ajuda da família.

Descobriu a igreja que minha mãe frequentava e assistia a missa ao lado dela. Pra piorar, na igreja deram o telefone da minha casa pra ele, que começou a ligar perguntando se eu achava que minha mãe tinha gostado da companhia.

Tinha muito medo de me abrir. Minha família estava passando por um momento horrível e eu me sentia egoísta de contar o que estava acontecendo. Decidi assumir isso sozinha, até o ponto que cada vez as coisas estavam piores e que não iam melhorar se eu não contasse.

Minha família foi à polícia, que na época disse que não poderia fazer nada, pois ele não me causara nenhum “mal direto”.

Quando meu irmão pediu que eu desbloqueasse o Rodrigo (nome do perseguidor) do MSN para conversarem, ele disse que poderia parar de me perseguir pessoalmente, mas que eu era dele e que na internet eu nunca teria paz.

Parei de jogar “Ragnarök”.

Todos os anos, até eu completar 21 anos, ele, com algum fake, me desejava feliz aniversário e feliz dia dos namorados. Nunca o encontrei pessoalmente, nem o paquerei.

Foi aí que virei a Ana Mhizar. Esta personagem foi meu escudo durante esses anos todos até eu conseguir algo legal que o mantivesse longe de mim. Por isso eu não postava fotos ou vídeos e nem falava de mim. Não queria ser identificada.

Criei uma personagem com um nome diferente do meu, pois queria voltar a jogar e a ter minha identidade online. Era eu mesma, talvez um pouco mais "durona e reservada", mas representada pela minha panda. A Ana foi a expressão da minha vontade de voltar a ser eu mesma no meio em que eu gostava, mas sem medo.

Se achavam que a Ana era mulher? A maioria identificava que sim, pois eu sempre fui mais "delicada" e usei pronomes femininos, mas quando me perguntavam eu não respondia nem que sim nem que não... fazia algum jogo de palavras ou brincava. Quando “me revelei”, muita gente disse acreditar fielmente que eu era um cara, não uma garota.

Foi muito estranha e ruim a sensação quando voltei a ser eu mesma, “mostrando o rosto”. Meu comportamento não mudou, mas o das pessoas em relação a mim sim.

Deixei de ser a boa jogadora, produtora de conteúdo, menina (?), cientista, programadora, para virar... bonita?

Me senti muito pequena.

Jogo sujo

Eu me afastei dos jogos nos últimos tempos, pois quem pareço se tornou maior do que quem sou. Meu gênero agora é fator determinante: se vou bem, “nem parece menina”; se vou mal, sou ofendida por ser menina.

O maior desafio para uma garota no jogo não é provar que sabe ou que é boa, e sim provar que também é gente. Digo no jogo por ser o tema, mas na computação é o mesmo (eu sou programadora).

Mais que provar que eu sei, tenho que provar que sou humanamente digna, que existo (tenho vontade, erro, acerto) e não subsisto ao papel de terceiros. Que não sou um enfeite.

As ofensas direcionadas para as garotas são diferentes daquelas dos homens: ninguém ofende um cara no jogo por ser um cara. Vão dizer que é lerdo, lixo, noob. Mas ninguém vai chegar e dizer: “seu homem! Tinha que ser homem, né?”.

Quando ofendem uma menina, a ofendem por ser menina, não por suas habilidades ou falta delas.

Daí a diferença entre a galera que alega “sou homem e também me xingam”. Xingam sim, pelo seu ato, e não por ser quem você é.

Isso é muito mais profundo e dolorido. Você pode treinar e deixar de ser “lixo”. E o que eu faço? Deixo de ser menina para não ser ofendida por ser uma?

Hoje tenho uma liminar que diz que ele não pode chegar perto de mim. Grande coisa; um papel não impede ninguém de fazer maldade. Mas não tenho mais medo: minhas maiores conquistas foram conseguir a ser quem sou, sem máscaras. E sair de casa.

*Ana Mhizar é um pseudônimo

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