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Ele joga "Street Fighter" com a boca e está entre os melhores do game

Reprodução/PVP Live
Imagem: Reprodução/PVP Live

Barbara Gutierrez

Do UOL, em São Paulo

01/06/2017 10h00

Conheça Brolylegs

De um lado, a paixão pelos games. Do outro, as dificuldades por trás de cada movimento. Vivendo no limite entre os dois lados, Mike “BrolyLegs” Begum segue a vida como pro player de "Street Fighter" - e dos bons: apesar de ter nascido com uma doença que afeta seu crescimento muscular, o jogador de 29 anos é considerado um dos melhores do mundo.

Natural de Tampa, cidade da Flórida nos Estados Unidos, desde os dois anos Mike nutre uma grande paixão por games. "Foi quando ganhei meu primeiro console, o NES, como um experimento dos meus pais. Eles queriam saber se eu conseguiria jogar com a minha incapacidade física", diz ao UOL Jogos.

Ele foi diagnosticado com artrogripose, uma doença congênita rara que impediu BrolyLegs desde cedo de usar seus braços ou pernas por fraqueza muscular. "A única maneira que achei para jogar videogames foi com meu rosto", explica.

"O meu primeiro campeonato foi no Texas, jogando 'Super Smash Bros. Melee'. Eu não fui tão bem, mas a a competição em si me deixou animado. Eu quis continuar para provar o quão bom eu poderia me tornar."

Atualmente, Mike viaja por todo o EUA para participar de torneios de "Street Fighter V" e é considerado um dos melhores pro players a utilizar Chun-Li como personagem principal.

"Em abril, eu competi em dois grandes torneios, Texas Showdown e Dreamhack. Nos dois, eu tive três vitórias e duas derrotas. Além disso, eu fiquei em 13º entre 400 participantes nas qualificatórias do Redbull e atualmente estou me preparando para chegar ao EVO."

De acordo com Brolylegs, seu momento favorito foi em 2011, quando participou de seu primeiro EVO, principal campeonato de games de luta do mundo que acontece todo ano em Las Vegas.

"Foi um momento muito surreal. É uma competição da qual eu sempre quis participar e uma cidade que sempre sonhei em visitar. Isso nunca teria acontecido sem os jogos de luta. Depois de todos esses anos, eu posso dizer com certeza que os games mudaram a minha vida para melhor."

Reprodução
Foi no EVO de 2015 que Mike enfrentou Daigo Umehara (foto), considerado um dos cinco deuses japoneses em jogos de luta Imagem: Reprodução

Sua autobiografia, chamada "My life beyond the floor" (algo como "Minha vida além do chão", em tradução livre) fala sobre as dificuldades enfrentadas pelo jogador por conta da deficiência e como os games o ajudam a superar seus problemas.

"Levou dois anos para que eu finalizasse o livro", explica Mike. "Eu escrevi sozinho em meu computador, digitando com um chopstick [pauzinhos japoneses utilizados para alimentação] na minha boca."

A própria Capcom produziu um vídeo a respeito do pro player, em uma série de mini documentários sobre jogadores de "Street Fighter". O resultado pode ser conferido abaixo, em inglês:

Recentemente, BrolyLegs anunciou que está sendo patrocinado pela AbleGamers, um projeto de caridade que trabalha com deficientes através dos jogos. O preconceito, segundo ele, ainda é grande.

"O preconceito é recorrente no cenário competitivo atual. Não importa se você é mulher, deficiente ou transgênero, é difícil se expor ao público e focar apenas no jogo. Há uma preocupação constante sobre o que as pessoas vão falar sobre você que interfere na diversão e competição."

"O que fiz para lidar com isso foi almejar ser bom nos games que gosto. Eu queria que as pessoas falassem mais sobre minhas habilidades como um jogador de 'Street Fighter' e menos sobre minha deficiência. Por enquanto, isso tem funcionado muito bem."

"Meu conselho para lidar com este tipo de situação é sempre lembrar porque você joga. Quem liga para o que os outros dizem? No final, tudo que importa é o seu amor pelo jogo. Com isso em mente, tudo pode ser superado."