Topo

Geek

Arma secreta: como a ex-esposa de George Lucas salvou "Star Wars"

Reprodução/Kodak
Marcia e George Lucas em uma mesa de montagem Imagem: Reprodução/Kodak

Victor Ferreira

Do Gamehall, em São Paulo

03/10/2017 04h00

Dos últimos anos para cá, a imagem de George Lucas sofreu uma certa... mudança... entre fãs de "Star Wars": de um visionário que bolou uma epopeia cinematográfica praticamente sozinho até um incompetente que não foi responsável por quase nada que transformou a franquia no que é hoje.

(Curiosamente, Gene Roddenberry, criador de "Star Trek", também tem uma reputação controversa no mesmo sentido)

Embora seja provável que a verdade esteja em algum ponto entre estas duas visões, é inegável que a Trilogia Clássica se tornou tão memorável em parte porque Lucas tinha um círculo de pessoas igualmente criativas ao seu redor, que podiam criticar e fazer novas sugestões sem medo de grandes represálias -- algo impensável na época de "A Ameaça Fantasma".

De todas estas pessoas, talvez a mais importante seja a menos conhecida pelo público: Marcia Lucas, esposa de George entre 1969 e 1983, e "arma secreta" que ajudou a transformar o primeiro "Star Wars" em algo muito maior.

Confira mais dos segredos por trás de "Star Wars":

Além de seu trabalho premiado como editora de cinema, muito do apelo emocional do filme veio de Marcia, em contraste com a visão mais clínica de seu marido. Graças a um divórcio extremamente amargo, porém, seu nome deixou de ser citado em relação às aventuras de Luke Skywalker, de forma praticamente deliberada pela LucasFilm.

Reprodução
George e Marcia, muito antes de "Star Wars" dominar suas vidas Imagem: Reprodução

A bela e o geek

Marcia Griffin nasceu em 4 de outubro de 1945 na cidade de Modesto, na Califórnia. Curiosamente, esta também foi a cidade de nascimento de seu futuro marido George, mas os dois só vieram a se conhecer décadas depois em um lugar bem diferente.

De família pobre, Marcia começou a trabalhar cedo, logo conseguindo um emprego de aprendiz de bibliotecária de cinema da Sandler Film Library mesmo sem ter nenhuma experiência com o processo de catálogo ou edição de filmes. Apesar de tudo, ela se mostrou extremamente talentosa na área, e conseguiu se ressaltar mesmo em uma área dominada por homens (ainda que menos do que outras partes do mundo cinematográfico, como direção e produção).

Em 1967, Marcia foi contratada para ajudar a editar um filme do governo sobre a visita do presidente Lyndon Johnson ao Oriente. Lá, entre vários estudantes de cinema da prestigiosa University of South California, ela conheceu um nerd franzino e introvertido chamado George Lucas.

Como qualquer nerd introvertido, George demorou semanas para falar com ela, quanto mais chamá-la para um encontro. Ainda assim, de alguma forma, a vibrante e energética Marcia formou um par perfeito para o cineasta em treinamento.

"Nós queremos nos completar, então procuramos alguém forte onde somos fracos", disse Marcia na biografia "Skywalking: The Life and Films of George Lucas" (ou "Skywalking: A Vida e Filmes de George Lucas", em tradução livre), de Dale Pollock.

George e Marcia casaram-se em 22 de fevereiro de 1969, e transformaram sua relação em uma parceria de trabalho duradoura, a começar pelo primeiro longa-metragem do jovem Lucas, "THX-1138".

Esta parceria só evoluiu, porém, com "American Graffiti" (também conhecido como "Loucuras de Verão" por aqui). Originalmente, Marcia montou o filme como George queria, com resultados desastrosos. Sozinha, ela transformou o projeto, dando mais espaço para cada cena e dando um ritmo mais metódico ao longa.

Sua visão foi recompensada: "American Graffiti" foi um dos maiores sucessos de 1973, conquistando não só o público como a crítica, e rendendo ao casal uma indicação ao Oscar de Melhor Direção e Melhor Montagem, além de transformá-los em milionários.

Após seu primeiro grande sucesso, o casal seguiu brevemente por caminhos diferentes: George começou a se dedicar a um script de um filme de grande orçamento inspirado nos serials de ficção científica que assistia quando era criança, com título provisório de "The Star Wars"; Marcia, enquanto isso, provou ser uma grande editora longe do marido ao assumir a montagem de "Alice Não Mora Mais Aqui", de Martin Scorsese, que gostou tanto do trabalho que a contratou para seu projeto seguinte, "Taxi Driver".

"Ela era uma editora inacreditável... talvez a melhor que eu já tenha visto, de várias formas", disse o diretor John Milius. "Ela aparecia e dava uma olhada nos filmes que estávamos fazendo -- "O Vento e o Leão", por exemplo -- e diria 'tire esta cena daí e coloque-a aqui', e funcionava. É o que queria que o filme fizesse, e nunca teria pensado nisso. E ela fez isso com os filmes de todo mundo: dos de George, dos de Steven [Spielberg], com os meus, e com os de Scorsese em particular"

Reprodução
George Lucas e Mark Hamill, definindo em uma foto a experiência de cada um nas filmagens de "Uma Nova Esperança" Imagem: Reprodução

Guerra nas Estrelas

Desde a concepção de "Star Wars", Marcia ajudou George com o processo -- mesmo não acreditando muito no projeto em si, já que não tinha a mesma nostalgia pelos Flash Gordons e Buck Rodgers da vida, e acreditando que ele estava perdendo tempo com algo mais infantil ao invés de explorar temas mais complexos e interessantes, como "Taxi Driver".

Por exemplo, foi ela (e não Sir Alec Guinness, como reza a lenda) que sugeriu que Obi-Wan Kenobi fosse morto por Darth Vader, já que George não sabia o que fazer com o personagem depois de levar Luke para longe de Tatooine.

Sua maior contribuição, porém, veio após uma emergência colocá-la no papel de editora do projeto: a montagem original, criada pelo britânico John Jympson, era um desastre completo, com uma estrutura desinteressante e ritmo tedioso.

Desta forma, o filme precisou ser totalmente reconstruído na pós-produção, com Marcia liderando um trio de editores composto por ela, Richard Chew (de "A Conversação") e Paul Hirsch (de "Carrie, A Estranha"), que trabalharam dia e noite por meses a fio para que o filme funcionasse. George, que teve sérios problemas de saúde durante a produção árdua, ajudava-os como supervisor.

Nada prova mais o talento de Marcia como editora do que o clímax do filme, com o ataque à Estrela da Morte pela Aliança Rebelde. Graças ao documentário não-oficial "Deleted Magic", é possível ver como seria a batalha descrita no script final, e é impressionante como algumas mudanças relativamente simples na sua estrutura a transformam em um dos momentos mais memoráveis da história do cinema.

Quem quiser pode conferir tanto a versão original quanto a vista pelo público abaixo:

Batalha da Estrela da Morte original

UOL Jogos

 

Batalha da Estrela da Morte final

UOL Jogos

Há uma série de diferenças notáveis entre as duas versões: Luke precisa atirar no exaustor duas vezes no original, ao invés de apenas uma; originalmente, Han Solo salvava o dia antes de Luke desativar o computador da X-Wing, e não o contrário; acima, de tudo, porém, está o fato de que a Base Rebelde não está prestes a ser destruída, o que eleva tensão de toda a sequência a um nível muito maior.

A versão final é infinitamente superior, graças principalmente à visão e habilidade de Marcia Lucas na mesa de edição. Não é à toa que o único Oscar que "Uma Nova Esperança" venceu no Academy Awards do ano seguinte foi o de Melhor Montagem, com ela, Chew e Hirsch recebendo suas próprias estatuetas.

Reprodução/Associated Press
Marcia, George e Oscar Imagem: Reprodução/Associated Press

Contra-ataque ao Império

Após o sucesso sem precedentes de "Star Wars" pelo mundo todo, Marcia esperava que ela e George finalmente poderiam aproveitar o resto de suas vidas em relativa serenidade.

Seu marido, porém, tinha outros planos: com o dinheiro do filme e suas sequências, ele pretendia montar um grande centro na região da Baía de São Francisco para cineastas poderem desenvolver e evoluir suas habilidades, chamando-o de "Rancho Skywalker".

Este plano, mais seu envolvimento direto e constante como produtor em "O Império Contra-Ataca", "Caçadores da Arca Perdida", "O Retorno de Jedi" e "Indiana Jones e o Templo da Perdição", acabaram por arruinar o relacionamento entre os dois.

"Eu vejo minha família algumas horas por noite e talvez nos domingos se tiver sorte, e estou sempre cansado e irritado e pensando 'nossa, eu deveria estar fazendo outra coisa'", disse George em uma entrevista em 1980. "Eu meio que acelero por tudo... tem sido bem difícil para Marcia, vivendo com alguém que está em agonia constante; bem sério e preocupado, com a mente nas nuvens."

Apesar de saber a causa da deterioração do relacionamento, Lucas não conseguiu lidar com o problema, e mesmo com a adoção de sua filha Amanda, os dois ficaram cada vez mais distantes.

Tudo culminou com "O Retorno de Jedi", em que Marcia também trabalhou como editora por sugestão de seu marido (a este ponto ela havia deixado esta carreira de lado para dar foco aos negócios da LucasFilm). O que era para ser uma chance de se reunir acabou separando-os ainda mais, ao ponto dos dois mal se falarem no fim da pós-produção.

No fim, Marcia pediu o divórcio em 1983, às vésperas do lançamento de "O Retorno de Jedi". George Lucas, em busca de seus sonhos de um império de entretenimento, acabou perdendo sua esposa e parte de sua fortuna no processo.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Esquecimento

Após isso, pouco se sabe da vida de Marcia Lucas. Com o dinheiro do divórcio -- estimado entre US$ 35 e 50 milhões --, ela aparentemente deixou a indústria do entretenimento para trás, indo morar com Tom Rodrigues, um artista que conheceu enquanto trabalhava na LucasFilm.

Houve algumas ofertas para edição e até direção de filmes para ela, mas ao que tudo indica ela preferiu deixar estas carreiras de lado para se dedicar à criação de Amanda e sua filha com Tom, Amy, como gostaria de ter feito com seu primeiro marido antes do lançamento de "Star Wars".

"Eu achava que tínhamos pago nossas dívidas, lutado nossas batalhas, trabalhado 8 dias por semana e 25 horas por dia", disse, em uma rara entrevista, ao jornalista Peter Biskind para o livro "Como a Geração Sexo Drogas e Rock 'n 'roll salvou Hollywood". "Eu queria parar e cheirar as flores. Eu queria felicidade na minha vida. E George não queria. Ele tinha muitos bloqueios emocionais, incapaz de compartilhar sentimentos. Ele queria ficar naquela trajetória de 'workaholic'. O criador de um império, o dínamo. E não conseguia me ver vivendo esta vida."

"Acho que ele se ressentia por causa das minhas críticas, achava que tudo o que eu fazia era para deixá-lo para baixo. Na cabeça dele, eu continuava sendo uma garotinha burra. Ele nunca achou que eu tinha talento, nunca acho que fosse muito esperta e nunca me deu muito crédito", continuou.

O quanto disso é verdade e o quanto é ressentimento por parte dela após um final de relacionamento tão conturbado é difícil saber. O que se sabe com certeza é que o divórcio abalou George Lucas como poucas coisas em sua vida.

Nos anos seguintes, Lucas procurou eliminar qualquer indício de que sua ex-mulher era uma parte significativa de seus trabalhos. Em livros, documentários e entrevistas relacionadas a "Star Wars", Marcia passou a ser deixada em segundo plano ou simplesmente ignorada, ao ponto de perder seu posto de editora principal para Richard Chew.

Editores, em geral, não são figuras conhecidas pelo público, principalmente porque é uma área com pouco glamour e a maior marca de seu trabalho é justamente a sua "invisibilidade" -- uma edição de qualidade, normalmente, não faz o espectador médio pensar muito a respeito dela, pelo menos não imediatamente.

Ainda assim, é triste ver que até entre grandes fãs de "Star Wars" o nome de Marcia Lucas não tenha muito reconhecimento além de "ex-mulher de George Lucas", quando muito do que fez a série ser o que é veio de suas ideias e habilidades na mesa de edição.

Um dos únicos lugares que reconhece até hoje as contribuições de Marcia Lucas para o cinema é, ironicamente, a universidade de seu ex-marido, a USC, que nomeou seu centro de pós-produção de "Marcia Lucas Post-Production Building".

Reprodução
Imagem: Reprodução