Topo

Jogos

PlayStation

Beleza não evita que "Gran Turismo Sport" seja o pior game da série

Reprodução
Imagem: Reprodução

Rodrigo Lara

Do Gamehall

26/10/2017 04h00

O que faz de "Gran Turismo" uma série de games especial? É impossível responder a essa pergunta sem citar a revolução que foi o primeiro game da franquia, lançado em 1997

Em um mercado dominado por games arcade, o jogo da Polyphony Digital ousou ter altas doses de realismo para a época. Isso incluía a necessidade de tirar carteira de habilitação antes de dirigir e um acervo de 130 carros que se comportavam de formas distintas. Além disso, também tinha uma relação simples, porém efetiva, de progressão: conforme campeonatos eram vencidos, o jogador ganhava dinheiro e poderia usar esses fundos para melhorar seus carros (ou comprar novos). Com os novos veículos era possível avançar para campeonatos mais disputados.

São características que, juntas, ajudaram a fundar o subgênero simcade.

Veja também

Eis que, 20 anos depois, "Gran Turismo Sport" chegou. E, sem exageros, jogou boa parte dessas premissas no lixo.

Montagem/UOL
Imagem: Montagem/UOL

Não é nenhuma novidade que o novo game daria ênfase às competições online e que isso, de alguma forma, cobraria um preço junto a quem curte jogar de maneira tradicional. Após algumas dezenas de horas de jogo, porém, a sensação que fica é que esse preço foi alto demais. E, mais do que isso: o que é entregue aos jogadores não justifica, necessariamente, os caminhos tomados pela Polyphony Digital.

Crise de identidade

É possível jogar "Gran Turismo Sport" de quatro formas distintas. As atividades para um jogador se concentram nos modos Arcade e Campanha, sendo que no primeiro há disputas de corridas únicas (que podem ter suas regras personalizadas), contra o tempo, provas de drift e provas para dois jogadores com tela dividida.

Não se engane, porém, com o nome do modo Campanha. Apesar do que ele pode indicar, não se trata de uma modalidade semelhante à vista em outros jogos da série.

Reprodução
Modo Campanha é dividido em uma série de desafios, porém carece de profundidade e senso de conquista Imagem: Reprodução

Comece esquecendo qualquer senso de progressão: na campanha de "Gran Turismo Sport" o jogador se limitará a disputar missões individuais. O primeiro conjunto delas consiste na "Escola de pilotagem" - sim, o jogo quer te ensinar desde conceitos básicos, como acelerar e frear, até outros mais avançados em 48 lições. Em seguida há o modo "Desafio de missão", com oito estágios contendo oito missões cada e que envolvem desde corridas normais até situações bem específicas.

Por fim, há a "Experiência de circuito". Assim como na "Escola de pilotagem", o jogo assume o papel de professor e destrincha cada um dos seus circuitos, ensinando as manhas dos traçados e, depois, fazendo você completar uma volta inteira. Em todos esses modos, há uma tabela de líderes que permite que os jogadores realizem disputas de tempos com os amigos.

E o conteúdo para um jogador do game acaba por aí. Cada missão concluída rende dinheiro que você pode usar para adquirir novos carros - ainda que não haja muita razão para isso. E se você curtia personalizar os modelos de sua garagem comprando peças, temos más notícias: com a ênfase em disputas online e a necessidade de manter os carros equilibrados, a personalização agora se limita a estágios pré-definidos de melhorias. Em termos visuais, porém, há uma boa dose de opções, sendo possível reproduzir algumas pinturas que fizeram fama ao longo da história do automobilismo.

Reprodução
Você pode comprar carros novos em "Gran Turismo Sport", mas ter modelos mais potentes não interfere na progressão do jogo Imagem: Reprodução

Corra com hora marcada

O modo online de "Gran Turismo Sport" oferece opções distintas. Primeiro temos o modo Esporte, a verdadeira modalidade competitiva do game. Os eventos se agrupam em corridas diárias - que, como o nome deixa claro, mudam a cada dia - e três temporadas. No momento, é possível apenas competir nessas corridas diárias, já que as inscrições para as demais modalidades só serão abertas em novembro.

Antes de correr no modo Esporte, porém, o jogador precisa a assistir a dois vídeos temáticos sobre "etiqueta de corrida". É algo tão enfadonho - ninguém precisa falar que você será punido se jogar o coleguinha para fora da pista - que fica difícil até comentar sobre.

Reprodução
Modo Esporte traz corridas "ranqueadas"; há uma rotação diária, com provas a cada cinco minutos, e também eventos futuros Imagem: Reprodução

Dentro das corridas diárias há três disponíveis por rotação, cada uma com um circuito e regras distintas e que não podem ser jogadas quando o jogador quiser: elas acontecem com hora marcada. Se, por um lado, é algo que permite que o jogador se programe, por outro isso significa uma perda de tempo considerável enquanto se espera o início de uma partida.

Além do modo Esporte, existem os lobbies tradicionais, onde jogadores criam salas, definem regras, chamam os amigos e partem para a corrida, sem nenhum segredo. Desde que você tenha uma boa conexão com a Internet, o modo online do game, em geral, funciona bem. Na tentativa de evitar o caos, a Polyphony Digital estabeleceu regras rígidas para essa modalidade e adotou algumas soluções para garantir o mínimo de civilidade nas partidas, como transformar carros erráticos na pista em fantasmas.

Beleza não é tudo

Se há um ponto no qual "Gran Turismo Sport" brilha é no visual. A modelagem dos carros está mais perfeita do que nunca e, neste ponto (e talvez apenas nele), o jogo supera games rivais. Se o jogador estiver utilizando uma TV com suporte à tecnologia de cores HDR, tudo fica ainda melhor. E isso também se aplica aos cenários e efeitos de iluminação, deixando tudo muito natural e borrando a fronteira entre game e realidade.

Ainda que indiretamente, o cuidado com o visual também acaba sendo a maior falha do jogo. Explica-se: ao gastar tanto tempo reproduzindo cada parafuso ou vinco da carroceria dos carros no game, a impressão que se tem é que outros aspectos do jogo acabaram comprometidos.

Reprodução
Modo de foto dá diversas opções ao jogador e é possível produzir imagens que mais parecem fotografias tiradas na vida real Imagem: Reprodução

Em "Gran Turismo Sport", por exemplo, temos o menor número de carros disponíveis desde o primeiro game da série: 163. Modelos antigos praticamente foram excluídos e a ênfase nas competições fez com que o jogo voltasse suas atenções para modelos de alto e altíssimo desempenho, além de versões de carros modificadas para as pistas. E isso também acaba afetando a jogabilidade, já que nuances de desempenho e comportamento dos carros acabam desaparecendo e tudo fica muito pasteurizado.

Outro ponto que deixa a desejar é o som. A velha piada de que os carros no game têm "ronco de liquidificador" perdeu um pouco de força, já que há modelos que se salvam. A maioria, porém, ainda soa de forma muito parecida e pouco fiel à realidade, problema que se repete em situações como colisões. É um aspecto que coloca o game muito atrás de jogos concorrentes.

Reprodução
Correr à noite é garantia de um belo visual, mas ausência de clima dinâmico é uma falha considerável do game Imagem: Reprodução

Por fim, temos a jogabilidade em si. Nas corridas sobre asfalto, "Gran Turismo Sport" não promove nenhuma mudança substancial em relação ao que já foi visto no decorrer da série. É uma boa experiência, especialmente se você utilizar um volante e deixar todas as assistências desligadas, mas repete alguns erros como o tradicional uso dos guard-rails para levar vantagem. Se não há adições, é fácil notar algumas perdas como o clima dinâmico. Já as corridas off-road mantêm a tradição da franquia: são completamente artificiais e descartáveis. Outro fraco padrão mantido diz respeito à inteligência artificial, com adversários que andam em fila e não oferecem nenhum desafio ao jogador.

Sem rumo

Se você curte disputar corridas online, manda bem no automobilismo virtual e vislumbra conseguir algo mais com competições de jogos do tipo, "Gran Turismo Sport" tem boas chances de te atender. Agora se você quer a experiência criada por "Gran Turismo", sinto muito: a série ainda não estreou para valer nessa geração.

Reprodução
O visual do carro permite um alto grau de personalização, mas o mesmo não é possível dizer sobre as alterações mecânicas que marcaram a série Imagem: Reprodução

Enquanto a Polyphony Digital se preocupou em garantir que "Gran Turismo Sport" entregasse os melhores gráficos, replays fantásticos, um modo foto perfeito (o game é praticamente uma fábrica infinita de papéis de parede para fãs de carros), slides com histórias das marcas (e, bizarramente, com fatos aleatórios), os concorrentes - e, mais especificamente, a Turn 10 e seu "Forza" - se concentraram em fazer jogos.

O resultado disso tudo é que a série que inventou um gênero e que é querida por boa parte daqueles que começaram a jogar games de corrida nos anos 1990 parece perdida e sem previsão para retomar seu rumo. E, analisando pelo viés mais tradicional, não é exagero dizer que, sim, "Gran Turismo Sport" é decepcionante.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{user.alternativeText}}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor