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Análise: "Spider-Man" é aula sobre como fazer um game de super-herói

Rodrigo Lara

Colaboração para o UOL Jogos

04/09/2018 11h00

A noite parecia tranquila o suficiente para se observar as luzes da cidade de Nova York do alto de um dos seus arranha-céus. No horizonte, ícones da arquitetura local, como o Empire State Building e o Chrysler Building, além do prédio com o enorme letreiro da Oscorp, uma das empresas mais famosas e poderosas do mundo.

De repente, uma ligação: é o Dr. Otto Octavius chamando para mostrar avanços em sua pesquisa sobre biomecânica. Por que não ir até o laboratório conferir?

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No meio do caminho, uma gritaria e sons de tiro. Um carro carregando criminosos é perseguido pela polícia. Hora de um desvio para ajudar os homens da lei e fazer jus ao seu apelido: o amigão da vizinhança.

O ciclo de acontecimentos acima é só um dos que você irá experimentar ao jogar "Marvel's Spider-Man", game exclusivo para PlayStation 4 que chega no próximo dia 7 de setembro por R$ 199,90.

Ainda que eu pudesse passar os próximos cinco ou mais parágrafos relatando diversas dessas ocasiões, não haveria meios de descrever aquele que é o maior mérito do game da Insomniac: ele faz com que o jogador, de fato, se transporte para a pele de Peter Parker.

E, caros leitores, isso é algo espetacular.

Imersão total

Ao contrário de boa parte dos jogos de super-herói, "Marvel's Spider-Man" não se preocupa em tratar das origens do personagem. Convenhamos: todos sabemos que o jovem Peter Parker adquiriu poderes especiais ao ser picado por uma aranha radioativa, teve seu lado heróico despertado após ver o seu tio ser morto por criminosos que ele deixara escapar e descobriu que grandes responsabilidades são consequência para aqueles com grandes poderes.

O jogo apresenta um Homem-Aranha mais maduro e habituado a lidar com uma Nova York caótica. Ele já enfrentou e venceu boa parte dos seus inimigos e, nas primeiras horas de game, consegue colocar o poderoso Wilson Fisk atrás das grades.

Seria o passaporte para uma vida mais tranquila, mas, como vemos no decorrer da aventura - e aqui vou me dar o direito de não revelar mais nada sobre a trama -, as coisas não acontecem bem dessa maneira. Vale ressaltar que um dos roteiristas do game é Dan Slott, que ficou a cargo das histórias do personagem nos quadrinhos nos últimos anos.

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Imagem: Divulgação

Lembra que eu disse aqui em cima que o jogador se sente o próprio Peter Parker? Pois bem: o nível de imersão proporcionado pelo game é tamanho que, de uma hora para outra, você passa a se importar com os rumos dos acontecimentos e com os personagens envolvidos.

Questões como a segurança da querida tia May e o relacionamento turbulento com Mary Jane Watson são preocupações constantes, assim como a sua vontade de ver que, no final, tudo ficará bem.

Esses sentimentos são comuns ao longo das cerca de 20 horas de jogo - isso, claro, se você se preocupar em ir direto e reto para o final da trama, que apresenta momentos tensos dignos de filme - e, no fim, você tem a sensação de que não quer que o game acabe.

Contribui e muito para isso a forma com a qual a cidade de Nova York foi reconstruída no jogo. Além da beleza visual e da presença de lugares famosos, ela é imensa e viva, facilmente um dos mundos abertos mais pujantes da história dos games, algo do nível da Los Santos de "GTA V".

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Há coisas acontecendo em todos os lugares, as pessoas te reconhecem e interagem contigo - andar pelo chão rende cenas engraçadas, como pedestres te cumprimentando e alguns te criticando.

É claro que, além dessa questão da imersão, "Marvel's Spider-Man" brilha na "parte jogo" da coisa. E é disso que falaremos adiante.

Simples, mas não simplório

Quando falamos da jogabilidade do game, é impossível não notar algumas influências de uma outra série que redefiniu o termo "game de super-herói": "Batman Arkham".

O combate contra inimigos acontece de maneira livre, com o Aranha usando seus dotes acrobáticos e suas teias para encarar as mais diversas situações, podendo, assim como na trilogia de games do herói da DC, atacar inimigos diferentes na sequência que desejar e mantendo um ritmo constante de ações.

Outra semelhança diz respeito à possibilidade de adotar duas abordagens distintas para a maioria dos enfrentamentos. É possível ser sorrateiro e derrotar um inimigo por vez, sem ser visto, ou partir para a porrada e fazer valer a sua força bruta. Raramente o jogo te coloca em uma situação sem escolha nesse sentido.

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Mesmo havendo apenas um botão de ataque físico, "Marvel's Spider-Man" tem um bom balanceamento entre simplicidade e profundidade, já que o jogador vai abrindo novos movimentos e também desbloqueia funções inéditas para o seu lançador de teias.

São ferramentas que facilitam muito a vida na hora de encarar hordas de bandidos e também oferecem mais opções caso você queira passar despercebido.

O mesmo vale para os mais de 20 trajes, que além de mudarem a aparência do herói e fazerem referência a momentos da história do Cabeça de Teia, também são dotados de poderes distintos e podem ser personalizados com equipamentos específicos.

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Os controles, de maneira geral, respondem bem, tanto na hora do combate quanto na exploração. Se balançar pelos prédios de Nova York é uma experiência bem orgânica e natural e são raros os momentos que o jogador se vê preso ao cenário - em geral, isso acontece quando não se calcula bem um pulo, por exemplo.

Natural também é o progresso do jogo. Missões paralelas têm o mérito de fazer sentido e até atividades opcionais, como recolher mochilas que Parker deixou pela cidade, capturar pombos, fotografar pontos turísticos, resolver quebra-cabeças - quando o lado nerd de Peter Parker assume o rolê - ou cumprir desafios propostos por um certo personagem não quebram o ritmo do jogo em nenhum momento. Tanto que é divertido obter os colecionáveis, que contam passagens famosas do passado do personagem.

O único ponto fora da curva nesse sentido são as breves missões nas quais você controla outros personagens. Em geral, são passagens curtas envolvendo uma boa dose de furtividade, mas que não comprometem a experiência em geral.

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A dublagem em português brasileiro também é passível de críticas. Ela não é um desastre, mas tropeça em alguns momentos - há situações nas quais há pessoas falando em inglês na rua - e, inexplicavelmente, não traduz o nome de heróis e vilões. É um tanto estranho ser chamado de "Spider-Man" e ver inimigos como o Abutre ser mencionado como "Vulture" no jogo.

Uma nova referência

Estes pequenos tropeços passam muito longe de tirar o brilho do game. Na verdade, é possível dizer que "Marvel's Spider-Man" é o "Batman Arkham" dessa geração: um game que, ao seu modo, define bases para o que esperar dos jogos de super-herói de agora em diante.

Ao retratar um herói carismático e, acima de tudo, fazer com que o jogador se sinta dentro do seu uniforme, a Insomniac alcançou um feito e tanto: criou um jogo que facilmente será tido como exemplo a ser seguido pelos próximos anos.

NOTA: 10