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Jogamos: "Fallout 76" é para quem joga com amigos e curte construir bases

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Imagem: Reprodução

Daniel Esdras

Do GameHall

08/11/2018 04h00

Estamos chegando ao fim do período de testes no Beta do "Fallout 76", e durante esse tempo, a Bethesda permitiu que milhares de jogadores experimentassem o mundo enorme do seu novo título.

A ideia de levar uma das franquias para um jogador mais consagradas do estúdio para o multiplayer online é arriscada e assustou os jogadores veteranos. A dúvida que fica no ar é se o que o jogo propõe é suficiente para manter esses antigos jogadores e principalmente se conseguirá atrair novos gamers dispostos a largar outros jogos do gênero que dominam esse nicho do mercado.

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Saiba mais sobre o jogo em nosso artigo.

RPG vs Sobrevivência

A primeira informação que os veteranos da franquia têm que saber é que "Fallout 76" deixa a parte RPG da série ainda mais de lado que o jogo anterior da franquia, "Fallout 4", e investe a maior parte dos seus recursos nas novas mecânicas de sobrevivência e na expansão do sistema de construção de bases.

A forma tradicional que a franquia usa para montar as habilidades do seu personagem foi modificada, o V.A.T.S foi repensado para se adaptar o combate em tempo real e os NPCs foram totalmente removidos, o que significa que não há escolhas em diálogos que alterem o mundo a sua volta. É um giro quase que total dos elementos tradicionais da série.

Não existem NPCs no jogo, a história é contada por meio de Holotapes, computadores e cartas

A remoção dos NPCs faz sentido na narrativa, uma vez que o Vault 76 foi um dos primeiros a se abrir após a guerra nuclear, apenas 25 anos depois do apocalipse. O primeiro impacto que você sentirá por conta dessa cronologia é a ausência dos Raiders e a introdução de inimigos mais primitivos como os chamuscados, que são versões iniciais dos Ghouls.

Mas na jogabilidade a intenção por trás da retirada dos NPCs é claramente forçar a interação entre os jogadores, o que pode ou não funcionar dependendo daqueles que estarão no servidor no momento.

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Os chamuscados são novos inimigos Imagem: Reprodução

PVP vs PVE

O tutorial é voltado para os jogadores veteranos. Não há uma longa introdução explicando como funciona cada mecânica como em "Fallout 3", a ideia é abusar da tentativa e erro. Você vai passando por estandes que possuem itens essenciais para sobreviver prontos para serem pegos e recebe uma mini-instrução engraçadinha de um dos robôs. Depois é mundo afora e as demais explicações são feitas por meio de missões.

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O tutorial é rápido e você logo pode andar pelo mundo Imagem: Rprodução

O mapa é enorme, o maior já feito para a franquia, quatro vezes maior que o do "Fallout 4". Até 30 jogadores podem estar conectados ao mesmo tempo por servidor, mas não são presos a ele. Ao sair do jogo e entrar novamente, você vai encontrar jogadores diferentes.

Você pode ver onde todos eles estão a qualquer momento no seu mapa, marcados com uma bolinha amarela que entrega até o nome do cidadão. A ideia aqui é criar um ambiente cooperativo e não concorrente e no que diz respeito a proposta do jogo, mas este é o primeiro problema.

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O mapa de "Fallout 76" é o maior da série Imagem: Reprodução

O jogo foi promovido como sendo de sobrevivência, o que não casa com o perfil dos jogadores tradicionais de "Fallout", que ficaram com medo de dividir o mapa com marmanjos empenhados em matar seus personagens a todo o momento, o que é perfeitamente razoável em um jogo focado no PVP. Para evitar essa crise com seus jogadores veteranos, eles introduziram um sistema que dificulta o ataque a outros jogadores e, como dissemos acima, deixaram com que todos soubessem onde estão todos os outros.

O sistema PVP funciona da seguinte maneira: um jogador pode atirar em outro a qualquer momento, mas o dano do disparo é reduzido, pois o PVP não fica constantemente ativado. Somente no caso de o outro jogador revidar é que ambos estarão liberados para dar o dano total de suas armas. Do ponto de vista do jogador que gosta de explorar e jogar mais na sua, é uma ótima mecânica, já que impossibilita os outros de ficarem matando o seu personagem. Para o jogador que quer o PVP, no entanto, é péssimo, pois ele pode ficar sem o que foi prometido nos trailers por horas até que alguém aceite o seu desafio.

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O PVP só começa quando alguém revida um ataque Imagem: Reprodução

E há outro problema com esse caminho tomado pela Bethesda: matar alguém que não aceite o PVP é difícil, mas o jogador que está atacando pode ficar por muito tempo azucrinando, dando tiros e atrapalhando a exploração dos outros jogadores, ainda mais sabendo onde todos estarão no mapa.

A recompensa para quem vence um eventual combate também é pequena e, com o sistema de vingança, que deixa o jogador que perdeu renascer para tentar matar o seu carrasco, aceitar o PVP e algo que nesse início de jogo simplesmente não compensa.

Aliás, morrer, em geral, causa pouca ou nenhuma penalidade. Você acaba perdendo apenas um pouco de dinheiro, mas mantém os seus itens e experiência intactos. Ainda estamos no início do jogo, mas parece que por conta dos motivos que demos acima, ninguém liga muito para morrer e aquela tensão que um jogo típico de sobrevivência traz por conta dos outros jogadores no mapa não existe. Ao tentar agradar jogadores de PVE e PVP ao mesmo tempo, a Bethesda deixou ambos sentindo falta de algo a mais.

Jogabilidade

O ponto alto do jogo é a construção de bases e a evolução dos equipamentos. Diferente dos Fallouts tradicionais, você começará realmente sem nenhum conhecimento sobre armas ou equipamentos. Será preciso encontrar receitas e desconstruir equipamentos para aprender as melhorias mais básicas, mesmo para as armas mais primitivas. Isso deu um senso de progressão maior para o jogo e é muito gratificante ver a melhora dos equipamentos do seu personagem.

A construção de bases foi expandida de forma até assustadora. A quantidade de itens disponíveis é impressionante e ainda nem arranhamos a superfície do sistema. Diversos vendedores, sempre robôs, comercializam novas receitas e materiais que prometem dar uma profundidade enorme para quem gostou dessa parte no "Fallout 4".

Já a exploração é exatamente o que se espera de um jogo da franquia. Centenas de pontos de interesse estão te esperando para procurar por novas armas, equipamentos e histórias escondidas. Como não existe nenhum NPC no mapa, o mundo às vezes parece meio vazio e a descoberta de tudo via Holotapes e computadores se torna cansativa. A parte boa é que, pelo menos até o momento, todas as fitas tinham diálogos muito bem escritos.

O sistema de "Perks", que são as habilidades de "Fallout", sofreu diversas mudanças. Os atributos ainda são regidos pelo sistema S.P.E.C.I.A.L., mas agora as Perks se relacionam com eles por meio de cartas.

Cada vez que você sobe de nível, é possível escolher um dos atributos para melhorar e isso também te garante mais um espaço para cartinhas do tipo do atributo escolhido. Vamos supor que você escolha Percepção para melhorar. Isso te garante os bônus do atributo e mais um espaço para cartas do tipo Percepção, que podem te dar mais opções no V.A.T.S. ou mais carne de monstros abatidos.

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O sistema S.P.E.C.I.A.L. está de volta Imagem: Reprodução

A parte legal é que agora você pode modificar o arquétipo do seu personagem a qualquer momento, alternando o seu foco de dano por segundo com armas automáticas para arrombamento de fechaduras ou invasão de computadores, por exemplo, de forma muito rápida. Novas cartinhas são recebidas à medida que você vai evoluindo e outras podem ser adquiridas em pacotes.

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Os Perks agora são cartinhas Imagem: Reprodução

O V.A.T.S., que era o sistema que pausava o combate para mirar em partes diferentes dos inimigos na linha original da franquia, foi totalmente modificado para atender as exigências de um jogo online. Agora você ativa ele em combate para tentar garantir que o tiro acerte o inimigo mesmo que você não esteja mirando nele. O resultado final é o mesmo do V.A.T.S. dos outros Fallouts, mas a forma como tudo é feito é estranha visualmente e demora um pouco para acostumar.

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O VATS foi modificado para funcionar no modo online Imagem: Reprodução

O novo V.A.T.S. também pode ser usado durante o PVP, o que deixa o combate bem acessível mesmo para quem tem dificuldades de mirar. Alguns pontos em Agilidade e outros em Percepção e você terá a garantia de acertar tudo que é tiro naqueles que te atacarem. Se esse é um ponto negativo ou positivo vai depender de cada tipo de jogador.

Foi adicionado também um sistema de fome e de sede. Você deverá comer e tomar água regularmente para recuperar a sua vida e não morrer. Isso foi uma ótima adição, que só existia no "Fallout: New Vegas", que foi feito pela Obsidian e deveria ser levado para os outros jogos da Bethesda. A existência dos alimentos se tornou muito mais justificável e os bônus que eles garantem para seu personagem realmente influenciam no andamento do jogo.

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Fome e sede estão presentes no jogo Imagem: Reprodução

Dá pra jogar sozinho?

O jogo pode ser jogado tranquilamente sozinho, mas a diversão mesmo está em jogar com os amigos, já que construção das bases pode ser feita em conjunto e a exploração de novos locais e missões também. Para falar a verdade, todas as mecânicas novas parecem funcionar melhor quando se está com amigos.

Como vários dos elementos de RPG foram removidos, se você jogar sozinho esperando um "Fallout" tradicional, pode enjoar rápido e tornar a experiência incompleta. Até mesmo a quantidade de inimigos por local parece ter sido pensada para ser melhor aproveitada com dois ou mais jogadores na equipe.

Um elemento que comprova isso são os eventos globais. Em diversos locais do mapa, eventos acontecem em tempo real, como por exemplo um grupo de robôs se rebelar ou uma usina entrar em colapso. Vários objetivos são dados para os jogadores que estão naquela região possam resolver o problema, favorecendo a cooperação. No fim, todos que participaram, em grupo ou não, recebem experiência e itens.

Gráficos e Interfaces

Os gráficos não são um ponto alto. A engine que a Bethesda usa para as séries "Fallout" e "The Elder Scrolls" já está no mercado por mais de uma década e o que ela entrega está bem abaixo do que vemos por aí. As texturas são feias e estouradas em diversos locais. A água está longe de parecer real e os modelos e animações dos personagens são truncados e esquisitos. Ainda sim, por conta do trabalho memorável da equipe de designers da Bethesda, algumas paisagens ficam bonitas e prazerosas de se observar a distância.

Em relação à interface, parece que a Bethesda aprendeu bastante com os melhores MODs que foram feitos para o "Fallout 4". A organização do inventário está bem superior ao jogo anterior e existe até mesmo uma opção de visão que favorece uma navegação mais rápida pelos menus, o que funciona perfeitamente para um jogo online.

O problema é que para outras derrapadas, como o péssimo uso do mapeamento de teclas para teclados no PC, não existirão MODs para salvar, já que uma ferramenta para eles deve ser implementada somente no próximo ano.

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A interface de "Fallout 76" aprendeu com os MODs do "Fallout 4" Imagem: Reprodução

Bugs e Performance

Os bugs presentes no Beta preocupam pelo pouco tempo que o estúdio tem para consertá-los até o lançamento. Por inúmeras vezes os disparos que acertam os inimigos não contam, monstros surgem e desaparecem do nada, partes da sua base somem ao serem transferidas de um lugar para outro e texturas e modelos não carregam em tempo de execução, gerando todo tipo de momentos desagradáveis visualmente, parecidos com os dias iniciais do "PUBG" no PC.

A performance também está abaixo do esperado mesmo para um Beta. Diversas áreas sofrem com quedas de quadros por segundo das bravas, o que em um jogo de tiro em tempo real dificulta muito as coisas. Outro problema são as travadas constantes ao se abrir o mapa ou chegar em uma nova área. Essa parte no entanto já recebeu melhorias mesmo durante o tempo do Beta e deve chegar mais redonda no dia do lançamento.

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Há diversos bugs de colisão no jogo Imagem: Reprodução

Com foco na sobrevivência e na ação, "Fallout 76" deve cair nas graças dos jogadores que gastaram centenas de horas no sistema de construção de bases do "Fallout 4" e abusaram dos MODs de micro e macro gerenciamento. Os jogadores do tempo do "Fallout 3" e "New Vegas" podem estranhar as mudanças e provavelmente se frustrarão com a forma que a história é contada e deixada em segundo plano.

A Bethesda terá um caminho longo e complexo para tornar esse capítulo da série em memorável para os novos e velhos fãs de "Fallout" e o sucesso dessa empreitada vai depender da quantidade e qualidade dos novos conteúdos que serão adicionados com o tempo.

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