Divertido e desafiador, "Nioh" é o melhor RPG de ação do PS4

Rodrigo Lara

Do Gamehall

Foram 13 anos entre a ideia inicial de "Nioh" e a chegada do game ao PlayStation 4. Esse período - pelo qual passaram três gerações de videogames - também significou uma mudança para o conceito do jogo em si. Inicialmente, a ideia era ser um RPG japonês tradicional. Após a fusão da Koei com a Tecmo, em 2008, essa ideia foi para o lixo e o futuro do game parecia ser algo na linha da série "Dynasty Warriors". Felizmente, em 2010, o jogo caiu nas mãos do Team Ninja.

Montagem/UOL

Felizmente porque, depois de jogar "Nioh", a impressão que fica é que a equipe responsável pelo recomeço da série "Ninja Gaiden" resolveu se redimir após alguns tropeços em seus últimos jogos. O resultado é um game de ação com elementos de RPG (e não ao contrário, que fique claro) desafiador, cuja maior diversão é conseguir avançar pelo próprio esforço, sem a sensação de estar sendo ajudados ou prejudicado por mecânicas artificiais. 

Clone de "Souls"?

É impossível falar de "Nioh" sem citar a série "Souls". Algumas das principais mecânicas do game têm sua origem na série da From Software, como uma barra de fòlego (chamada de Ki no game do Team Ninja) que dita a capacidade do personagem de realizar ações como atacar, defender e correr); a presença de Santuários que, uma vez usados, recuperam a energia do personagem, mas fazem com que os inimigos reapareçam; o sistema de evolução e a consequência da morte; e, claro, a tão temida alta dificuldade.

Aqui, vale ressaltar que "Nioh" é um game que exige, sim, um certo nível de habilidade do jogador e abre mão de facilidades como checkpoints frequentes, algo comum em jogos atuais. A boa notícia é que, nesse aspecto, ele é um jogo bem mais "justo" do que "Dark Souls", "Bloodborne" e companhia. Por mais que o jogador seja surpreendido por inimigos escondidos ou grupos de adversários, o sistema de combate do jogo faz com que sempre exista uma chance de se sair vencedor.

E, por falar em sistema de combate, ele é o que mais distancia "Nioh" da série "Souls". A impressão é que o Team Ninja moldou o game em torno desse sistema, que consegue ser simples, ao limitar os tipos de armas disponíveis, sem que isso o torne raso.

As três posturas com a arma em mãos (alta, que favorece ataque; média, que é mais equilibrada; e baixa, que favorece esquivas e ataques rápidos) adicionam uma boa dose de profundidade, que é complementada pela grande quantidade de golpes específicos de cada tipo de arma. 

Divulgação
Seja na espada ou usando um canhão de mão, em "Nioh" o jogador tem total liberdade para escolher como encarar os desafios

Essas características, somadas ao tipo de armadura utilizada, deixam nas mãos do jogador a tarefa de escolher a forma mais conveniente para encarar os desafios de "Nioh". É possível montar personagens mais pesados, capazes de acabar com os inimigos com golpes lentos e poderosos, ou criar um guerreiro ágil e virar um mestre das esquivas.

Os itens, por sua vez, respeitam um sistema de raridade, algo similar ao visto na série "Diablo". É comum pegar itens iguais, mas com características e poderes distintos. Esse sistema é algo que acaba incentivando a exploração e a repetição de missões. Por falar nelas, o jogo não usa um sistema de mundo aberto com áreas conectadas entre si, mas sim um sistema de missões principais, secundárias e respectivas versões crepusculares, muito mais difíceis do que as originais. Com isso, é possível repetir a mesma fase quantas vezes quiser, enfrentar chefes mais de uma vez e acumular itens. 

O sistema de multiplayer possui, até o momento, dois modos distintos. É possível simplesmente responder a um chamado de um outro jogador, assim como ocorre na série "Souls", ou criar um tipo de partida na qual os jogadores se encontram previamente, decidem qual missão explorar e, uma vez lá, não agem como convidado e anfitrião, mas como parceiros. Nesse caso, uma barra, dividida por ambos, diminui cada vez que um deles morre. Uma vez que ela terminar, a missão é considerada uma falha. Há também a possibilidade de se unir a facções que garantem atributos bônus. O ranking dessas facções é determinado pela quantidade de fantasmas de outros jogadores derrotados, os chamados ressurgidos.

Um samurai ocidental?

A ambientação também é ponto positivo de "Nioh". O jogo conta a história de maneira clara e isso motiva o jogador a explorar mais os cenários, em busca de documentos ou cadáveres que possam revelar mais sobre o que ocorre. O protagonista William Adams se baseia na figura histórica homônima, tida como um dos primeiros britânicos a chegar no Japão.

Divulgação
Os Yokai variam de forma e tamanho (mas não em feiura) e representam os inimigos mais desafiadores do game

A trama gira em torno da Amrita, um mineral místico desejado pela administração da rainha Elizabeth I por ser capaz de fazer o Império Britânico vencer uma guerra contra a Espanha. Na jornada pelo Japão de 1600, William encontra diversas figuras famosas da história local, como Hattori Hanzo e Tokugawa Ieyasu, além de encarar adversários humanos e os Yokai, demônios que surgem após humanos serem transformados pelo poder da Amrita.

Além da história em si, a forma como ela é contada agrada. Pequenos trechos da trama são revelados ao jogador durante a exploração e entre os combates. Essa contextualização constante ajuda na imersão e evita que o jogador se perca na complexa narrativa do jogo. E o fato de misturar fatos reais com elementos fantásticos acaba tendo a função de uma breve aula de história nipônica.

Técnica exemplar

Em termos técnicos, "Nioh" utiliza saída típica de games para PC: a possibilidade de se escolher entre um modo que privilegia a resolução, mas diminui a taxa de quadros para 30fps (a mesma de "Dark Souls III"); outro mais voltado para a ação, que mantém a taxa de quadros em 60fps constantes e um que permite que esses valores variem dependendo da situação. Felizmente, não é algo que afete muito a experiência.

Por falar em visual, "Nioh" vai bem nesse quesito e, mesmo não sendo uma produção do nível de "Uncharted 4", é um jogo bonito. Os cenários são variados, inimigos são detalhados e efeitos de luz e partículas muito bem feitos. O mesmo vale para o som, capaz de transmitir a atmosfera sombria de determinadas partes do jogo. A câmera, porém, apresenta momentos de indecisão em ambientes mais apertados, o que pode ser minimizado ao diminuir sua sensibilidade.

No final das contas, "Nioh" eleva o nível dos RPGs de ação ao enfatizar os combates e se mostrar acessível para quem estiver disposto a encará-lo. Com uma narrativa intrigante e competente em termos visuais, sonoros e, principalmente, em sua jogabilidade, ele se firma sem dificuldades como o melhor de sua categoria no PlayStation 4.

UOL Cursos Online

Todos os cursos