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Jogar "Fallout 76" é difícil, mas pelos motivos errados

Rodrigo Lara

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/11/2018 04h00

Quais são as principais qualidades da série "Fallout"? Ainda que tenha jogos muito diferentes entre si, alguns tópicos acabam sendo reincidentes no decorrer da franquia, como o rumo de sua narrativa, a ambientação, o vasto mundo recheado de atividades, personagens, surpresas e a jogabilidade em si. 

Em conjunto, esses fatores acabaram gerando sólidas experiências para um jogador.

Bem, em poucas palavras, "Fallout 76" pega todo esse retrospecto e joga fora. Pode parecer um tanto cruel dizer isso, mas bastam poucas horas jogando o lançamento recente da Bethesda para PC, PlayStation 4 e Xbox One para perceber que há algo errado ali.

Na linha do tempo da franquia, o novo jogo está posicionado como o primeiro. Ele se passa no ano de 2102, quando os ocupantes dos abrigos anti-nucleares começaram a tentar repovoar a superfície da Terra, após o holocausto de 2077.

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Você é um desses humanos e, após sair do abrigo 76, localizado em meio aos Apalaches, na porção leste do território dos EUA. O game começa justamente com o jogador saindo do abrigo e encontrando um mundo devastado, em sua maioria ocupado por robôs e criaturas afetadas pela radiação.

A partir daí, você terá que explorar o ambiente, criar abrigos temporários, recolher materiais para criar novos itens, melhorar os já existentes e interagir com outros jogadores. Não, você não leu errado: "Fallout 76" é o primeiro game da série totalmente multiplayer e online. Sai de cena, portanto, um jogo de tiro em primeira pessoa com doses de RPG, como visto em "Fallout 4" e entra um MMO, sigla para jogo multiplayer massivo online. 

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Imagem: Divulgação

E é aí que reside um dos primeiros problemas do jogo: ele depende excessivamente dos jogadores para povoar o seu mundo. Isso se torna um ponto crítico especialmente no atual momento, ou seja, logo após ele chegar às lojas.

Um mundo vazio... e entediante

Como bem provou "The Legend of Zelda: Breath of the Wild" e "Red Dead Redemption 2", ter áreas vazias em um mapa de game de mundo aberto não é exatamente o problema. Desde, claro, que isso seja permeado com áreas mais povoadas.

Considerando que em "Fallout 76" você faz parte de uma primeira onda de humanos explorando a superfície do planeta após um holocausto nuclear, é justificável encontrar um mundo que seja qualquer coisa menos pujante. 

Sem uma comunidade numerosa, formar um grupo para fazer missões e explorar o jogo depende um pouco de sorte e da disposição dos jogadores convidados para tal - ao menos é simples fazer isso ao encontrar um outro jogador no mapa.

Na maior parte do tempo, contudo, você fará as missões sozinho, percorrendo longas distâncias nesse mundo vazio, tendo que lidar com a fome e a sede do seu personagem. Eventualmente, você usará a mecânica de construção de acampamento baseada em um item chamado C.A.M.P. - uma espécie de base móvel - para criar o "seu canto", definindo questões como formato da base, as estruturas que ela irá conter etc. 

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Este acampamento também serve como ponto gratuito de viagem rápida.

É algo que demanda tempo, especialmente se você for o tipo de jogador mais detalhista. Tempo este, aliás, que acaba não sendo exatamente recompensado. O ponto positivo é que todo o seu esforço em criar um layout de acampamento pode ser salvo e realocado em qualquer parte do mapa. 

Outro ponto que merecerá uma atenção extra diz respeito ao gerenciamento de recursos. "Fallout 76" enfatiza bastante a criação de itens e, para isso, você precisará recolher recursos pelo mundo. O problema é que o peso que você pode carregar é limitado e aí entramos em um ciclo que envolve coleta e armazenamento de itens que, na melhor das hipóteses, pode ser chamado de repetitivo. 

Na jogabilidade, "Fallout 76" é uma mistura entre game de tiro e RPG. O combate ocorre contra inimigos controlados pelo computador e, futuramente, contra outros jogadores. Nele, você pode usar armas brancas, de corte e de fogo. Todas elas podem ser aprimoradas. 

Uma grande diferença em relação aos outros jogos da série é o sistema V.A.T.S., que permite atirar nos inimigos sem, necessariamente, mirar de maneira convencional. Dada a natureza online de "Fallout 76", em vez de congelar a ação ou deixá-la mais lenta, como ocorria em "Fallout 4", o sistema no novo jogo apenas permite atirar sem precisar mirar e também escolher partes específicas do corpo dos inimigos que você deseja atingir. 

Falha técnica

É comum que jogos da Bethesda que têm mundos vastos - "Skyrim", "Fallout 4", entre outros - demorem um tempo até ter seus bugs sanados.

Não é nada diferente com "Fallout 76". O jogo sofre de diversos problemas, seja inimigos que ficam presos ao cenário ou taxa de quadros inconsistente. Na versão testada, em um PlayStation 4 convencional, o jogo ficou diversas vezes em "câmera lenta" e deu travadas curtas, mas irritantes, seja ao se caminhar pelo mapa ou, ainda, ao acessar algum menu.

Houve outros problemas notados. Há uma espécie de atraso entre o momento que você atinge um inimigo com um tiro e ele, de fato, leva dano. Isso causa situações bizarras, como quando você acerta um golpe fatal em um inimigo, mas ele contra-ataca e só depois morre. 

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Os arquivos de áudio coletados, por exemplo, simplesmente não tinham o som (nem as legendas) reproduzidos. Ainda há tropeços na tradução de alguns termos para o português.

Por fim, o jogo passa longe de ter um visual primoroso, ao menos quando jogado nos consoles "convencionais". Em alguns momentos, "Fallout 76" parece um game da geração passada, com cenários pouco detalhados, texturas pobres e inimigos longe de serem bem modelados.

Um jogo completo?

Após algumas horas de "Fallout 76", a impressão que se tem é a de que ele se trata de um jogo em fase de acesso antecipado, e não uma versão final. Fosse essa a condição de lançamento imposta pela Bethesda, seria possível dizer que há um potencial no game - ainda que ele exigisse uma intensa lapidação para ser alcançado.

O problema é que não se trata de um game em acesso antecipado, longe disso. É complicado recomendar a compra de "Fallout 76" em seu atual estágio e há boas chances de que aqueles que fizerem isso acabem frustrados.

Na atual situação, resta esperar pela evolução do jogo ao longo dos próximos meses e torcer para que "Fallout 76", de fato, honre o nome da série. 

Ao menos é possível jogar "Fallout 4" enquanto esperamos que isso aconteça.

Nota: 5