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"Red Dead Redemption 2" atende às expectativas com imersão sem precedentes

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Rodrigo Trindade

Do UOL, em São Paulo

25/10/2018 08h01

"Red Dead Redemption 2" chega nesta sexta-feira (26) acompanhado de uma enorme expectativa, daquela que é difícil de ser atendida. Primeiro trabalho da Rockstar Games desde o aclamado "GTA V", de 2013, o novo capítulo da saga do Velho Oeste levou oito anos em produção e, felizmente, todo esse tempo resultou em uma aventura primorosa, digna do pedigree da empresa e dos últimos games lançados por ela.

Disponível para PlayStation 4 (por R$ 248,99) e Xbox One (por R$ 249,00), "Red Dead Redemption 2" se passa em 1899 e coloca o jogador na pele de Arthur Morgan, num período que marca o começo do declínio do Velho Oeste americano. Fora da lei, o protagonista é um dos líderes da temida gangue de Dutch van der Linde, um grupo de rebeldes que vive praticando crimes contra as autoridades, elites e rivais naquela que era a parte "atrasada" dos Estados Unidos, onde a modernidade do leste ainda não havia chegado para valer.

Se o nome do chefão da trupe é familiar, não é por acaso, pois ele era um dos antagonistas do primeiro "Red Dead Redemption". John Marston, herói da outra aventura de faroeste feita pela Rockstar, também está presente, como um dos subordinados de Dutch.

A dinâmica da gangue está no centro da narrativa do game, que é dividida em capítulos e tem início em uma fuga em comboio das forças da lei. A introdução é linear e relativamente longa, apresentando os controles básicos ao jogador, além da personalidade de Arthur Morgan.

Um grande pistoleiro, o protagonista é carismático, leal e dono de um forte senso de honra. Membro de longa data da gangue, ele é responsável por ajudar Dutch botar a ordem no caos da fuga, a princípio buscando um abrigo para os colegas e depois indo ao resgate de figuras que se perderam do grupo em meio à confusão.

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Paisagens de "Red Dead Redemption 2" são belíssimas Imagem: Reprodução

Mundo rico e imersivo

Ao final do capítulo, que serve como um prólogo, a exploração do mapa de "Red Dead Redemption 2" é liberada ao jogador.

O mundo não é como o do primeiro "Red Dead Redemption", onde prevaleciam planícies áridas e cânions. Existe um elo entre os dois games, que é a cidade de Blackwater, mas o restante do mapa do novo jogo apresenta ambientes com maior variedade na flora e fauna. Há cenários montanhosos, pântanos, rios, florestas, cidades pequenas e outras mais elaboradas que podem ser visitadas.

Cada bioma tem sua vegetação e animais característicos. Jacarés, por exemplo, aparecem na região dos pântanos, enquanto bisões são encontrados em vales de uma área que alterna planícies e planaltos. A natureza do jogo também tem uma dinâmica como se fosse a do mundo real, sendo um exemplo disso a aparição de urubus e corvos quando uma carcaça de animal aparece largada.

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O cuidado tomado na distribuição das diferentes regiões, além da forma como cada uma delas foi preenchida, se destaca se comparado a outros jogos de mundo aberto, como o ótimo "Assassin's Creed Odyssey". A construção geográfica é toda coesa, acompanhada de um visual realista e de objetos que reagem a efeitos climáticos, como árvores balançando ao vento e alterações na iluminação causadas por uma névoa que baixa de vez em quando.

O que mais me chamou atenção na parte técnica, tendo jogado com um sistema de som surround, foi o design de som. Os efeitos sonoros do ambiente, fossem eles gritos de pessoas, tiros ou galopes do cavalo, causaram uma sensação de imersão sem precedentes. É possível se orientar por meio dos sons, o que tornou "Red Dead Redemption 2" uma experiência sensorial inédita para mim.

Personalização da bota ao bigode

O carinho que a Rockstar tomou com a parte técnica não se limitou aos gráficos e ao som, mas também com as milhares de possibilidades de customização da aparência de Arthur Morgan, seus cavalos e armas. Você pode passar brilhantina no cabelo do protagonista, escolher diferentes tipos de sela para equipar o cavalo ou trocar peças de um rifle.

Umas mudanças são apenas estéticas, enquanto outras têm impacto na barra de vida ou de resistência do protagonista. Se você for a um ambiente com neve, é necessário vestir uma roupa mais pesada para que a saúde de Morgan não seja abalada. São pequenos detalhes, mas que mostram como os produtores se dedicaram para criar um mundo em que tudo faz sentido.

A personalização vai além da estética, se estendendo a como Morgan é visto por outros personagens do mundo. Ele é um fora da lei como outro qualquer outro da gangue de Dutch, mas você pode decidir se ele se torna um sanguinário ou um anti-herói honrado, que ajuda os mais fracos em situações cotidianas ou de vida ou morte.

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Conversas no acampamento são recorrentes e fundamentais para história de "Red Dead Redemption 2" Imagem: Reprodução

Essas missões paralelas, totalmente opcionais, podem render ótimos frutos. Em uma delas, ajudei um homem que havia sido mordido por uma cobra na região dos pântanos. Ele não tinha como me pagar, mas ficou de me retribuir em outro momento. Para minha surpresa, o encontrei horas depois em uma cidade e ele se ofereceu a comprar qualquer item de uma loja. Ganhei um novo traje de graça, sem ter a menor ideia de que isso poderia acontecer.

Morgan também pode usar os fundos que ele arrecada para aprimorar o acampamento itinerante da gangue, melhorando a oferta de comida, mantimentos e armamentos a todos. O acampamento, inclusive, serve como ponto de encontro com o elenco heterogêneo da trupe de Dutch, cujos membros são personagens bem desenvolvidos ao longo de missões ao lado do protagonista ou de conversas casuais.

Se você não curtir o comportamento de um colega de gangue, pode maltratá-lo. O jogo te dá essa liberdade de interação, que tem como consequência como os outros personagens tratam Morgan. Este é outro trunfo do jogo: escolhas que importam, refletidas pelas centenas milhares de falas gravadas pelos mais de mil atores que cederam seus talentos à Rockstar.

Muito a fazer, nenhum excesso

A produtora se gaba pela quantidade de conteúdo de "Red Dead Redemption 2", mas ter mais nem sempre significa um produto de  maior qualidade. Aí está outro mérito do jogo, ocupou absurdos 98,15 GB de memória no meu PlayStation 4, mas não deu nenhum sinal de que parte disso era supérfluo.

O game traz uma história intrigante com enorme variedade de missões, um vasto elenco de personagens bem desenvolvidos, minigames opcionais, mais de duas centenas de animais para descobrir, duelos contra gangues rivais e mais uma série de outras atividades possíveis. É uma mistura que tinha tudo para ter partes que parecessem forçadas, adicionadas só para aumentar artificialmente as horas de jogatina.

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"Red Dead Redemption 2" está repleto de sequências cinematográficas Imagem: Reprodução

Não é o caso. As partes se se misturam em um fluxo natural, que faz com que atividades paralelas não pareçam interferir na urgência da excelente narrativa principal.

A construção de mundo é uma parte indispensável desse encaixe, assim como a jogabilidade fluida, seja nas sequências de cavalgadas, trocas de socos ou tiroteios - o icônico Olho da Morte, que deixa a ação em câmera lenta, está de volta e melhorado.

Sucessor de um game que é certamente um dos melhores da geração PlayStation 3 e Xbox 360, "Red Dead Redemption 2" poderia muito bem ser apenas uma ótima sequência que honrasse suas origens. Que bom que a Rockstar não se contentou com isso e criou um jogo que entra para o hall dos clássicos de mundo aberto pela enorme ambição e execução impecável.

Nota: 10